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5 de dezembro de 2014

Seus pés não tocavam o chão há pelo menos dois quarteirões.
Conseguia sentir a força no dorso do pé, toda a vez que realizava a fase de impulsão da marcha, ao mesmo tempo em que o balanço de seus ilíacos colocava suas pernas em propulsão atômica. Todo o peso de seu corpo dividido nas fibras solares, fazendo cada passada erguer uma pequena hérnia. Fibras musculares em febre, a contração de sua perna deixava visível toda a linha que separava os ventres musculares. Tendão pulsava em cada retomada de velocidade, artérias cheias, audível pulso há quilômetros de distância. Uma marcha fúnebre tocada em “drum n' bass”. Respiração urgente a fazia borrar o rosto com uma cor avermelhada e ofegante. Sua capacidade em realizar contrações excêntricas poderosas lhe dava mais poder proprioceptivo, assim voava pelas ruas em um transe de maratona. Os olhos não olhavam nem mais as pessoas solitárias. O cérebro perguntava para onde as pernas estavam indo, ou se elas pertenciam a algo. Ela apenas voava. Mãos escorregavam pelo suor descendente em sua testa. Sentia cada articulação da costela arder carne viva e os meniscos abrandavam cada toque fêmorotibial. Repetitivos e dolorosos. Conseguia sentir toda a contração de seu tendão patelar segurando a revolta poderosa em seu quadríceps. Ofegante não podia parar. Pulmões esfacelando-se a cada expiração sem o menor resquício de pressão negativa. Não mais espaço para dilatação ventricular. Era como se fosse explodir, deixando pedaços de seus poros pelo chão. Marcha ensandecida contínua, ela era supernova consciente de sua destruição. O padrão de aterrissagem em cima de seu osso púbico transverso ao inferno. O corpo latejava, porém ela não podia parar. Não agora nem nunca, não existia espera, apenas a urgência de correr e correr e correr, era uma obrigação de alma ser mais veloz, antes que seu corpo fosse inteiramente coberto pelo desamor. Antes que todo o inferno fosse solto diante de seus olhos.  
Entretanto, o corpo fora dos códigos binários da salvação na tela clama por compaixão fisiológica. Uma pausa em arabescos pacíficos. Chora entre cada passada de desespero. Espera uma canção para que se mantenha aquecido, afinal a fuga é gelada, tem eu ser gelada, longe de todo o que aprendera com o mundo. Obriga-a contorcer seu peito e desatrelar suas mãos de seus braços. Busca nadar por entre o ar em forma de uma parede de titânio. Os pés ardem, olhos já sentem a lava correr por entre as artérias oculares, e ela então derrama um líquido escuro pelas narinas, que ao chegar ao solo sedimenta-se em formas estelares. Ela quer sair de seu próprio corpo. Soltar de seus ossos uma ecdise em pele, marcando sua fuga, um solavanco em seus perseguidores, porém sua pele não rasga, uma oração urra para que pedaços de suas células simplesmente caiam, desapareçam sublimadas pelo ar quente da avenida, na cidade do patriarcado, no lugar onde todas suas feridas foram abertas. Um silêncio rompe a rua por onde ela passa em carreira desabalada, ouve ao longe os cães do Inferno soltarem-se das amarras, sabe bem no fundo de seu ventrículo esquerdo que é preciso continuar respirando, ouvindo os acordes de seus dedos tocando o asfalto, risadas sem coluna espinhal em velocidade terminal sussurram xingamentos dentro e seu ouvido. Os urros que ecoam por entre décadas dentro desse mundo, a pressão dentro de sua casa para que se ajustasse ao papel secundário da mulher de família, o reservatório de esperma paternalista, apenas um peão dentro do jogo de homens mais velhos, intelectuais amigos ou até generais catedráticos. Ela precisava escapar, jamais poderia ser como suas semi semelhantes, doces compassivas que aceitavam sem questionar a personagem costurada em seus corpos pela sociedade, que apenas esperava uma obediência cega aos mandatários e seus egos inflamados e paus à mostra assim que necessário. Os predadores oficiais e suas meretrizes regurgitadoras de conceitos pseudo libertários.

Ela respira mais uma vez. 

Enfim suas mãos rompem a camada grossa de ar que a segura. Pelo canto dos olhos, um homem e seu boné cantarolam Touch Me I'm Sick, ela então sente seus ligamentos rompendo-se fibra por fibra, rasgando a pele que sustenta os ossos. Tendões começam a florescer de sua epiderme encharcada por suor. Fios e mais fios saem de todas as articulações de seu corpo, formando um mosaico de formas e cores em vermelho. Seus braços e pernas agora parecem os de um boneco. Capitaneados por algum artista a suspender sua marionete pelo ar e a faz dançar tropegamente pelo palco sem luz. Ela observa seus tendões estirados, admira a beleza da decomposição de seu antigo corpo, enfim está fugindo de maneira real de tudo o que a cerca. Os poros abertos por onde correm as fibras de colágeno agora expelem uma substância oleosa eu lubrifica os tendões e não os deixam desgastarem-se. Ela observa que, enquanto sobem aos céus, seus músculos ganham mais força, tornam-se concreto e ferro, ela então contorce o ar ao seu redor como se suas mãos fossem dois remos feitos de endoderme e sangue, não existe titereiro até então, seu corpo torna-se outra coisa, tendões são impulsionados pelas nuvens que formam trilhos acima de sua cabeça, ela estará em breve livre, sua nova forma esmagará qualquer resquício de educação, que até aquele momento havia deixado em seu corpo apenas o sórdido paternalismo eterno de uma cidade amoral do interior. De cada vértebra mais duas aberturas laterais formam-se, por elas transpassam mais fibras de colágeno na direção do cinza céu, elas entrelaçam-se desde o final de sua coluna até sua nuca, uma amarração látex fisiológico. Dois fios principais são suspensos, que agora, juntamente com os quatro pares de cada braço e os três em cada perna formavam oito pares tendinosos que a suspendiam por entre o lixo daquela cidade. O infinito representado em seu corpo por fibras oleosamente vermelhas de revolução mecânica. As regras da genética cuspidas como veneno, uma aberração religiosa exorcizando um deus vazio, e que até então, era apenas mais um maldito filho de uma puta misógino. Como todos daquela cidade, sempre achando-se deuses de alguma coisa, da esquerda, da direita, da moral e bons costumes. Mas ela iria transgredir o corpo, era ali, sangrando seu endométrio sagrado, que escaparia dos lobos, suspensa em sagrado bondage.

E naquele segundo apenas ela se perde, é quando vê o homem de boné as gargalhadas.

Começa a correr novamente, a pele em suas costas estraçalhada pelos ligamentos da coluna. Suspensos a colocavam acima do nível da rua. Como em um pesadelo, agora parecia correr parada, seus tendões violentamente levam-na correr cada vez mais rápido, sente o ligamento em sua nuca expandir seu crânio. Pensava que se ao menos pudesse parar a inércia de voar em gravidade zero poderia ser mais rápida. Sua única hipótese era escapar daquilo, pois passar por tudo mais uma vez não era uma opção.

Seu corpo agora formara bíceps alados com pontas afiadas de cera. Pulsando em cada sopro de ar fervente, os pés ardiam, mãos já geladas pela chuva torrencial de sua testa começavam a latejar. Não havia mais miosina suficiente em seu corpo. Fáscia passeando pelo travamento, e mesmo assim, a suspensão dos seus tendões ficava cada vez mais forte. Ela deixava para trás um rastro de ódio, água e flores.
Por minutos incontáveis ela permaneceu nesse estado de latência deambulatória, não se importando com nada ao seu redor. Correndo, sentindo o pulsar do sangue como labareda seminal de uma menarca. Esfacelando-se até o abismo do fim da rua embaixo daquela ponte, próxima à praça da cidade. Exatamente lá onde sentiu os tendões arrancados de suas costas pelo adestrador de marionetes. Expondo toda a musculatura paravertebral. As asa aladas em seus braços derretem-se, os ligamentos nas suas pernas e braços secam, despencam ao chão lavando-o com uma coloração arroxeada, são hematomas que ao tocarem o concreto tornam-se escaras, o cimento faz do sangue uma necrose eterna e suas ressonâncias ajudam a deixar ferias abertas no corpo dela. Então ela se vê imóvel, sangrando e tremendo. Pavorosamente calada, esperando a tormenta que a seguia passar. Rezando muito baixo para que nenhum dos cenobitas a encontrassem. Olhava em seu corpo e sentia todas as marcas dos tendões recolhidos e enrolados ao redor de sua boca, para que não chorasse. Silêncio em hipnose de salvação.
Por um momento ela sentiu-se só, nada além de seu corpo cansado debatia-se contra o vento. Nada mais havia de ruídos na rua, era apenas ela e todas as cores que exalavam de seu corpo destruído pela fuga. Olha por segundos um horizonte inexistente, sente o bafo quente deles por perto, quer correr de novo, mas seu corpo não obedece. São segundos inimagináveis, sabe que precisa sair de lá, porém, está presa por um estado de inércia estática. Os ligamentos sem lugar certo, uma marionete sem função, e mesmo assim resolve sair.
Abre os olhos. Acorda do sonho corredor pela pancada forte de um cabo de vassoura que estilhaça suas costas.

 - Onde você pensa que vai? A voz ecoa pelos ouvidos atordoados, sente apenas as mãos puxarem a manga de sua camiseta dos Intruders. Presa, sente seu braço torcido por uma força coletiva. Uma sensação de alívio nervoso chega por entre seus olhos. Não porque tudo estava desabando, mas porque enfim não sentiria mais as dores causadas pelo seu pai. Currada em espírito pelo aglomerado de meninas e meninos que lhe machucariam, qualquer coisa era melhor do que sentir as dores causadas por ele. A fila vestia-se quase como um uníssono. Jeans e camisetas refletindo as escolhas de vida de cada um. Bonecas, bailarinas e pequenos cachorros televisivos ilustravam suas camisetas. As calças minuciosamente surradas por precisões da moda de época mostravam que assistiam todos os seriados de televisão modais. Não existia diferença de cor e raça quando o assunto era assombrar. Apenas uma força destruidora de almas que escondidas jamais poderiam lutar contra a força.
- Como é que você corre assim? Replica novamente um de seus carrascos. Ela não sabe o que responder. Está estática. Sente apenas a elevação de seus tendões, mas dessa vez a suspensão não lhe salvaria.
- Você corre melhor do que eu, mas também é de se imaginar.
- Não é verdade?
O interrogatório continua. Palavrões ecoam por entre os montes de areia que escondiam ferramentas, nas construções da rua. Árvores olhavam pelos retrovisores de folhas toda a cena que nascia por entre as agressões verbais. Letras formadoras de insultos jamais imaginados habitantes em boca cercadas por cremes dentais caros. Apenas a luz em piscadela intermitente acompanhava as palavras, cada vez mais ferozes.
Entretanto as hienas queriam mais. Precisavam descontar toda a raiva da fuga em sua pele. Alguns meninos acotovelavam-se nas sacadas para assistir à crucificação pública que aconteceria em breve. Pedaços de madeira das construções eram feitos pregos, cravando repressão pelas coxas da quase menina. Por instantes ela percebe que sua vida pode acabar ali mesmo e não se revolta. Apenas aceita com devoção sua derrota sobre a vida. Um soco queima o chão e atravessa suas narinas fazendo com que engula as primeiras hemácias rodeando as bordas. O estalido dos ossos é invisível e repleto de ódio. Não há fuga, apenas um enorme puxão de suas tranças, seguido de mais um ou dois socos desavisados.
- Me responde uma coisa, sua coisa...
- Como você se sente sendo esse monstro que você é ?
A pergunta ecoa mais um cabo de vassoura que explode nas costas dela. Ela não cai, aceita a pancada, sofre com cada nervo explodindo por entre a dor nos músculos posteriores.
- Me responde ?
- Me responde seu aborto mal acabado.
- Me responde como é possível seu pai ter gozado dentro da sua mãe e como resultado essa merda ter saído dela.
A cada pergunta, uma nova agressão assolava suas costas. Ela quase se ajoelha, mas resiste. Não pode desistir agora. Onde estará o homem de boné?
- Você não vai me dizer nada?
- Então você vai apanhar mais sua vaca, ou eu devo dizer seu monstro? Explode a repressão machista da família no peito de seu agressor que lhe desfere outro soco. Cuspindo em sua cara, a vassoura ressoa por entre as orações das carolas que dentro de suas casas escondem-se para não ouvir o terror na voz dela.
Seguidos pontapés. Ela sente seu estômago por entre a faringe. O gosto de sangue é tão fresco quanto névoa da manhã. Ela apenas deixa seu corpo ir. Quer morrer. E quem sabe, não é essa sua hora. A risada do agressor trava o ar ao redor de todos. Um soco forte na altura do olho faz com que ela se curve, encostando seu rosto próximo à pélvis do algoz.
- É exatamente aí que você tem que ficar, sua puta, perto do lugar onde o meu prazer interessa.
Era como deitar a cabeça dentro do leão, mas ela apenas ouvia o silêncio, suas mãos trêmulas não conseguem estancar o sangue, deixa-o ir então. A morte seria alento. Ela sente sua foice acariciar seus cabelos, está pronta. Mesmo não vivido mais do que seus quinze anos. Quer morrer desesperadamente pois o sangue não estanca e a dor não cabe mais em um corpo só. E quando mais um pedaço daquela mão vai em direção ao corpo dela, algo acontece. Uma labareda corre por entre os dentes dela, e os fios formados por seus tendões esticam uma vez mais, colocando-a em pé. Empunha suas mãos como marretas. A menina cria urra de dor. Sente sua pele despregar dos ossos e suas mãos já não são mais suas. São presas, vítimas de uma força maior que ela, maior que qualquer tentativa de ataque inerte e covarde. As mãos alcançam a solta pá da construção ao lado do picadeiro. O ferro incrustado com concreto de outrora forma uma carapaça de tartaruga no instrumento de construção. A simetria dos tendões elevados faz com que fique em posição armada. O zunido do ferro corta o ar e explode no rosto do agressor que cai semi-inconsciente.  Os olhos do predador e da presa encontram-se. A pupila dela empala-o e a pá descreve outra linha giratória e quebra as costelas do monstro da moda. Nesse instante, forma-se um clarão de vácuo. Um trovão reside diretamente dentro das quatro órbitas. Um frio ártico percorre a espinha e sua mão lentamente se despe da forma fechada. Um medo corta a violência, ela o fez sentir tudo havia de mais desesperador dentro dela. Estampado em gotas de rancor que eram desferidas sem perdão. O sangue ainda correndo pelo seu rosto mesmo depois da vingança ,abaixa sua calça e esfrega violentamente seus genitais na cara do agressor, agora inerte. A horda de defensores estarrecidos com a reviravolta da cena, não conseguem nada além da verborragia.
- Quem você pensa que é para bater assim em nele, nosso amigo, você permitiu que fôssemos assim com você, no momento em que foi sincera consigo mesma e aceitou tudo o que aconteceu calada.   
Ela sangra cinza, amalgamando sua alma de encontro ao asfalto.
Não existe mais dor, apenas o silêncio de um corpo semimorto. Deixado para trás pelo mestre das marionetes, à própria sorte. O choro não está lá, as vozes não estão lá. O homem de boné muito menos. Apenas uma pausa, porque ela já sabia que o martírio apenas começara. Entendia desde sempre o quanto ruim o mundo poderia ser, mas foi essa percepção que a salvou e não apenas essa ponte. O sangue ainda é fresco e com sabor de novo, mesmo passado tanto tempo naquele dia de outubro, onde descobriu que por mais ódio e dor que sentisse jamais quebraria. Quando sentiu pela primeira vez como é ter sua carne cortada pela audácia malvada de alguém. Todos os detalhes permaneceriam vivos dentro dela. A voz esganiçada lhe dizendo todas as palavras pesadas em seus ouvidos. Os gestos que a faziam lembrar que ela não tinha um reflexo, apenas a silhueta de um mamilo em sua boca para alimentá-la. Os toques exageradamente bruscos na direção de seu rosto. O corte por entre suas sobrancelha e pálpebra, fazendo-a derramar aquilo que fazia dela alguma coisa em que se apoiar. O DNA, sua marca espalhando-se por entre seu rosto e pingando no chão, desesperado em ser contido, coagulando toda a insensatez. Deixando que todas as hemácias levassem aquilo que era mais importante embora.
O discurso de defesa da horda transforma-se em linchamento, o mesmo que ela inadvertidamente em defesa própria fez com seu algoz, desse modo a vingança seria mais forte ainda, e foi paga da maneira mais violenta possível, com socos e um estilete comprado na livraria da cidade, desfigurando sua face e perfurando seu sexo. Ela não gritou, não lutou. Não havia porque lutar, muito menos ninguém que ajudasse. Apenas uma ponte, testemunha ocular de uma vida que se esvaziava por entre a saliva grossa da horda em seu rosto e o vermelho que teimava em não parar. Não havia alarmes e não havia surpresas. As pancadas eram as mesmas, as pessoas eram as mesmas. Tudo era tão parecido em sua vida, que ela sabia - aquele líquido a escorrer jamais deixaria de cair. Entretanto não podia correr, apenas poderia tentar sobreviver mais um dia. Assim era desde seu nascimento, não poderia ser diferente agora. Ela se lembra de ver todos os seguidores indo embora cuspindo pelo chão. Em especial um último que ao sair fez com que sua saliva se misturasse ao seu sangue no chão, deixando claro que apenas a mistura do escarro a faria igual. Deixada aos urubus e hienas, assim cheia de cortes, tudo tornava-se mais claro. Sangue e catarro trouxeram um entendimento maior do que a morte. Ela então se abaixa por debaixo dos restos de sua alma, suas mãos tornam-se pequenas pás. Começa recolher a mistura de saliva, escárnio e sangue pelo chão. A poça disforme começa a tornar-se um médio quadrilátero, algo levemente disforme, sobra de uma tela estampada pelo concreto, suas mãos já não mais são pás, tornam-se pincéis, o amontoado de secreções move-se aleatoriamente, pseudópodes revoltos dançam por entre as arestas gastas do calçamento, olham ao redor e certificam-se de que não existe mais ninguém, apenas ela e seus restos espalhados. Uma tela exata nasce então. Através do ar posiciona a canvas próxima de suas pernas, ela então começa a desenhar traços e mais traços vermelhos e brancos, seus dedos exalam as cores e as moldam, lentamente formas iniciam um ritual que poderá durar por toda sua vida, mas apenas naquele momento elas serão sua salvação. As feridas em seu rosto e corpo desenvolvem pequenos orifícios parecidos com bocas, línguas mínimas aparecem estancando o massivo sangrar e apenas deixam pequenos rastros de secreção saírem. Em cada gota um grito seco estala, no chão seco as cores tornam-se vivas ao mesmo tempo que fagocitam cada pedaço de sujeira a atrapalhar o desenho feito pelas mãos pincéis. Leves movimentos levam as cores para onde elas devem estar, deixando os tons mais nítidos, as gravuras de uma rupestre alma perdida dentro da evolução macho misógina onde fora criada. Tudo é uma coisa só, suas mãos, o sangue e o desenho, nada mais importa. 
Apertando cada vez mais os cortes, as dores sentidas eram impossíveis, cada vez maiores, ainda assim inicia uma dança com as mãos. Todo o sangramento que vinha dela lhe dava vida. Olhando para a poça ainda disforme, procura um melhor ângulo, uma melhor sombra e o melhor traço. Assim se fez. O quadro era exatamente o que queria ser, sua projeção libertária. Todas as rosas que ela podia imaginar cobrindo seu corpo machucado, as nuvens em que ela se deitaria depois de sentir todo seu líquido esvair. Os sorrisos sentidos secretamente embaixo da ponte, o amor que sempre sonhou, porém em toda sua vida estripado pelo destino fora. Tudo desenhado pelos líquidos que saiam de dentro dela. Sabia que essa era a única maneira de escapar. Sentia toda a aflição de sangrar, mas estancaria todas as feridas com os desenhos que ela fez no chão. Peixes estranhos em arpégio de cores derivadas em vermelho. Eles se movimentavam e lhe sorriam, em traços infindáveis. Tudo na mais perfeita ordem. Ela desenhou o mundo, seu mundo. Mesmo com um quase desfalecer sabia que era preciso fazer daquele corte vida. Lembrou quando lhe disseram que tudo daria certo se continuasse a acreditar, se mantivesse sua fé inabalável, o mesmo estupro mental consensual de sempre, mas dessa vez não. As mentes que mentiam em castas jamais saberiam de seu desenho, jamais entenderiam os tendões. Assim, ela percebeu algo que lhe escapou por quase toda uma vida, a solidão que se vive só é a mais dolorida, porém também é a mais linda.


11 de fevereiro de 2014

3 

O único entrave era que ninguém conseguira ver o nada.

Não por falta de interesse ou tentativas, mas por ser inebriante e impalpável. Essa aura sacra ao nada era uma veia metafísica existencial injetada ao longo dos séculos, o que o tornava um santo grão invisível. Ao mesmo tempo em que sua existência preconiza acreditar na sua forma, o que por si só seria como crer em na presença de espíritos e planos astrais, desconhecida é uma maneira eficaz em conceber uma definição pura de maneira aristotélica, afinal, a dicotomia das coisas excedia em muito a presença do nada. Um copo cheio de água quando esvaziado ainda lhe restavam à consciência em ser copo e o ar dentro de seu interior, que ao tomar o lugar da água torna-se protagonista da cena, o escuro quando muda seu espectro torna-se claro e não se torna o nada, e vice e versa. O vazio não pode ser definido como nada, pois estes, existenciais ou não, são repletos de moléculas de ar ou entrecantos calamitosos de sentimentos que invalidam a presença da completa falta de matéria, o vácuo também inexiste nessa definição do nada, pois existem as pressões e limites do espaço físico, podendo ser uma embalagem de café ou a minha caixa de areia chamada Cosmos. A definição do nada como a ausência ou falta de alguma coisa vai contra sua própria existência. Sendo ele a absoluta falta de preenchimento, ainda lhe sobra à percepção de ser nada pelo outro, pelo seu antagonista e por sua nêmese, assim sendo, o nada já pode ser considerado um pedaço do tudo, seu antagonista determinado na curvatura mais clara ou escura do yin e yang, sem nenhuma real intenção em sentir-se único, apenas uma parte do completo estado bruto de existência, porém sem uma definição concreta estabelecida pelo homem muito menos por mim. E esse era o problema. Como explicar o nada, como determinar o que ele é, se para os relojoeiros do universo chamados astrofísicos, até o nada dentro de meu universo é chamado de massa escura. Complica-se então muito mais a história dessa definição, porque como algo que é nada pode ser uma massa escura. Existe a massa, então não existe o nada. A massa é o nada e a massa é o tudo que contém também pedaços de nada, parte de pedaços de tudo. O tudo, o nada e a massa, a massa, o nada e o tudo. Ninguém conseguia entender esse pedaço de meus trabalhos, na verdade, essa parte de minha história, mais precisamente meu nascimento e como acabei criando tudo depois. Existe sempre o vértice de explicação ineficaz, como as resenhas dentro das canções populares dos anos oitenta a pregar uma salvação destrutiva, entretanto dentro desse fato tópico, repleto em maledicências ou teorias absurdas falta um tipo único de descrição, uma conjunção de elementos que construiriam uma indestrutível tese sobre o que é e como perceber o nada, um estudo geofísico de lisura tamanha que ninguém poderia sequer questionar a veracidade de seus pensamentos, uma explicação que fosse embasada em uma testemunha ocular, essa era a pedra que faltava para que todas as respostas fossem dadas. Uma testemunha, um olhar físico e palpável dentro da construção do todo, capaz de definir por suas observações dos iniciais acontecimentos dentro do Universo o nada. Irrefutável como as agudas insinuações nas claves de Barrett, onde bicicletas eram morada dos gatos satânicos de estimação e as declarações de amor deixavam-se levar por emancipações da aura, e, ao invés de recobrirem-se com medo pelo desconhecido, embarcavam de uma vez por todas em uma paleta de cores circulando a estratosfera da Terra, onde as escalas em oitavas com base em um interminável dó um dois e dois um refastelavam-se nas expansões dos acordes dominantes da sétima, que serviam de término onde o sol era úmido, when I was alone you promisse a stone from your heart, my head kissed the ground, e assim tudo recomeçaria, pelas sólidas esquizofrenias dessas letras trocadas como uma ímpar numeração correndo em uma linha descendente incessante, eis as testemunhas vivas de uma criação dentro da única pureza que realmente consegui ver em todos esses anos, o Caos. As cordas eram testemunhas que enquanto fossem percutidas continuariam a disseminação da tese, e uma testemunha era o que faltava para que finalmente todas as questões desse mundo pudessem ser resolvidas, algo, que até onde consigo perceber minha existência dentro desse redemoinho analógico de sinapses, não existe.

Uma única alma ali in loco, presente e esperando os acontecimentos desenrolarem-se, não havia. Ninguém apto em colocar um rosto nesse nada, uma arrumação de cabelo que pudesse lembrar a humanidade como seriam marcantes seus traços faciais, suas orelhas ternamente alinhadas aos seus ossos occipitais, a borda de sua pele alterando tons rosáceos e avermelhados ao receber raios solares em seu rosto, o queixo levemente arqueado como se fosse um portão medieval guardando a grande via de entrada do largo pescoço, que, desdobrado em duas metades sinestésicas vislumbrariam ombros de rodamoinhos cósmicos, braços longos e firmamentos de falanges, somar-se-iam ao tórax angulado de formações retangulares espaciais, protegendo um quasar com dois átrios e dois ventrículos em compasso redobrado, pernas inalcançáveis terminando uma conjugação biomecânica descritiva feita por essa única e solitária testemunha sobre como o nada se tornou o Universo. Entretanto, esse querer vai contra toda minha teoria, já que se existisse ocular visão dessa terceira parte interessada em disseminar conhecimento, o nada já não seria tão nada assim. Um relator de fatos tornaria o acontecimento compartilhado por duas consciências astrais, a minha e a do outro, sendo assim, uma visita nesse momento obviamente colocaria em risco a soberania tirana da qual não abro mão, e, que com tempo mostrou-se de primordial obrigatoriedade não fazê-lo. Por isso o caos que hoje existe diante das milhares de teorias a respeito de como tudo começou e se sou ou não verdadeiro, faz parte do meu jogo. Uma verdade que não tem a menor relevância em ser descoberta, pois meu controle perderia o sentido nessa nova realidade, assim, perdendo meu sentido, não mais teria minha valia dentro desse mundo. O que para todos os seres humanos teria ares de catástrofe, pois tenho em minha imaginação que nenhum deles queira me ver profundamente nervoso.

Pois então esse é o começo de tudo, muito antes de poder criar no oitavo dia minha mais linda cria, assunto que realmente importa nesse relato. No tempo anterior ao nascimento do Universo eu permaneci adormecido por longas passagens do que costuma-se chamar tempo, minha cria gosta de dizer em nossos encontros que esse período vivido de trás para frente, enquanto a massa escura tentava expandir-se em algum lugar dentro de mim, foi a única prova de minha bondade. Sempre dizia a prima forma generosa aconteceu enquanto eu permanecera dormindo indefinidamente, e que depois do despertar de minha consciência ao existir, qualquer traço de compaixão que pudesse florescer dentro de meu infinito ser nunca mais poderia ser concebido, essa foi a ímpar cena onde dei espaço à um outro tipo de matéria deixando minha própria existência em segundo plano, um engasgo evolutivo onde entendi o altruísmo do deixar crescer algo independente de minha vontade, deixando-me assim possuir por uma involuntária forma primitiva do que vim a criar depois, o chamado amor, e que jamais consegui compreender ou deixar tomar-me por ele novamente. Obviamente que a ideia dela era completamente infundada, porém é preciso entender que nem mesmo ela tinha ciência, quando discursava sobre minha inabilidade em amar, desse seu erro de julgamento. Porém existe uma quantidade de verdade nesse limiar de existência concebido por minha cria, visto que jamais consegui realmente sentir algum tipo de afeição por nada, nem um único traço de felicidade ao ver o despertar dos cães caçando migalhas, envoltos em nuvens aristotélicas saídas dos cachimbos de crack de seus donos, moradores inebriantes e saltimbancos do Elevado Costa e Silva, pelas luzes que emolduravam o escuro nas alamedas de tijolos soltos e gramado semiúmido de urina na Praça da República¸ nenhuma curva de sorriso ao refletir o sol nas nascentes poças em bueiros repletos de lixo em uma tempestade de verão, nada que esboçasse uma quinquilharia dental mais larga ao ver que o vento, construindo-se em dobras atemporais no formato de seus canalículos, empurrava as nuvens Ozymandias, presenteando o céu cinza, poluente e anêmico com pequenas anedotas, inexistente empatia com as saias nos tempos mais desérticos, as saias a emoldurar genus valgos ou varos, genus que entreolhavam-se por entre as casas costuradas, as casas em formato vaginal alojando em seus pequenos lábios distorções por onde se forçava a entrada de seus inquilinos, os botões, moradores que sonhavam cotidianamente em manter sua vida menos miserável ao conseguirem alcançar a epiderme de orvalho, botões rodeados por pregas estridentes que permaneciam como longos penteados encaracolados, as pregas, lançando tentáculos por toda a extensão norte sul leste oeste das pernas, pernas em canvas desenhadas originalmente por mim mesmo, espaçadas como dois compassos simétricos à uma paleta de palavras que descreveria cores inebriantes dentro das saias, as saias, pregas e as pernas, os genus, nada disso era capaz de soltar um único gemido de felicidade em mim, nada, o mesmo nada filosofal que ninguém define, o mesmo nada, berço de meu nascimento seja talvez o ponto e a morada de todos os problemas que aconteceram no decorrer da vida dela, o meu nada sempre foi extremamente maior do que qualquer conjunto de invenções ou somáticas soluções inventadas pelos meus descendentes seres humanos, nunca existiria uma única sombra de esperança esverdeada para que a felicidade nascesse dentro de minha suposta alma, isso explica a desmensurada escuridão que recobriu tudo sobre ela, pois eu sou ela, e ela eu, unidos pela única centelha que nos torna (todos) siameses, a melancolia.

E então o início não poderia ser outro, como os sérvios mais tarde com maestria descritiva deixariam claro, no começo existia apenas o silêncio de meu dormir, existia apenas uma inexistência, algo que não estava lá, porém repousava em um sono impossível de se quebrar, nem ao menos uma respiração a martirizar um suposto cansaço, era apenas um sono desprovido de sonhos ou reflexões decorrentes de um cansativo dia, não existia o pesadelo revolto em um grito como nas tantas noites e dias onde meu formato humano sucumbia aos martírios de uma existência, dias e dias insuficientes de uma tentativa inóspita em se viver como minhas experiências fracassadas, sentindo o que eles sentem, comendo o que comem, respirando com seus pulmões, andando exatamente como os mesmos, depositando esperma em cima de esperma quente em homens e mulheres da mesma maneira que todos para entender o funcionamento da mais odiosa de minhas invenções, clamando por salvação nos becos escuros com uma nota enrolada em minha mão esquerda aterrorizando pequenos comerciantes de cocaína com ilusões de enriquecimento deturbadas por minha infinita vontade em inalar uma tonelada. Não havia nada, mas a massa escura ao encolher-se absorveu o tempo e o transformou em espaço, que ao expandir-se, construiu o vazio e seus calabouços, em um deles adormecida, minha consciência foi acordada, dentro do nada, adormecida e até por que não dizer feliz por estar em coma, mas o Universo não pode deixar nada para trás, muito menos sem algum propósito, pois assim o quadro formou-se, o vazio criou-me e deu origem ao vazio eterno dentro da essência de tudo que seria minha imagem e semelhança. Confesso uma certa ingenuidade relacionada ao meu quase auto criar-se, pois em certos tempos imaginei que essa esfera oca da qual fui arrancado para algo que depois se chamaria vida, pudesse ser preenchida. Sorrateiramente realizei tentativas e mais tentativas em acabar com esse vazio que me acordou da fenda espaço e tempo e que nunca mais desistiu em residir dentro do meu peito, destruir a casca de ovo guardiã do bem e mal dentro de minha alma, evitar que ela fosse aberta e reagisse com possibilidades que tardiamente depois da luta floresceriam o claro e o escuro, o fogo e água, a luz assim como a escuridão, o verão do mesmo jeito que o imperdoável inverno, tudo aquilo que reverti em falta de marasmo da minha existência e explodi como lágrima a escorrer por séculos dentro de meus olhos cada vez mais vermelhos da lava nascida nos vulcões de meu ódio. O vazio que despertou-me logo na primeira oportunidade, como se fosse capataz de um senhor de engenho aos berros com chibatas dilacerando minhas costas, perseguindo uma única oportunidade de paz que possuía, uma chance em manter-me irreparavelmente semimorto, esse vazio jamais deixou-me, e, do mesmo modo, ao inverso geométrico desproporcional, cresceu enquanto as lacunas abertas para fuga dentro do espaço diminuíam. Assim foi que ocorreu meu nascimento, através do despertar vazio e do encolhimento da massa escura, prensando a anti-matéria do espaço tempo, criando vias e vias onde o universo poderia transitar naturalmente, minha prisão, muros invisíveis, intransponíveis, muros sem concreto nem tijolos, cercando o nada, tornando-o deserto dentro de mim, formando minha cadeia genética de pósitrons, meu corpo inexistente que não possuía a menor consciência de que já existia, apenas recebia as colisões da massa escura com as partículas positivas formando mais e mais pulsares, mais e mais genes de mesma matéria da teia negra, uma super simestria que aflorava e se tornaria quase tão eterna quanto eu mesmo. Nunca houve explosão, apenas o encolhimento do Universo em camadas cada vez mais frias, em espaços cada vez mais recobertos de partículas geradas pela meu próprio nascer, eu, capaz de conceber à mim mesmo, e ao mesmo tempo ser concebido pelo encolhimento do nada, tornando-se cada vez menor e cada vez mais consistente como física, onipresente tanto na destruição quanto ao nascimento, infelizmente em proporcional teor, impotente quanto minha vontade de nascer ou não, pois de pudesse escolher entre as galáxias formadas pelo sofrimento e um aborto, escolheria o segundo sem ao menos pensar muito sobre o assunto. Mas essa escolha nunca me foi dada, fui expurgado pelo simples fato de não possuir controle sobre como as identidades metafísicas constroem seus enigmas, por isso minha falha começa já no parto, na demora em entender o que acontecia ou responder aos chamados que me retirariam do sono, minha falha, como todas as outras que vieram à seguir em tudo aquilo que construí depois, demostrou desde o início dos tempos a quantidade da minha estupidez e auto complacência com minhas imbecilidades, pari, cresci e evolui ao redor de falhas que tornaram-se míseras estrelas cadentes, ou erros retumbando por séculos, como por exemplo o ser humano. O poder da falha jamais deveria ser subestimado, pois é nela que se pode ver toda a beleza do erro e a tirania da busca por perfeição. Isso tudo embutiu em mim, na desventura de meu nascer, uma tristeza sem precedentes, uma vontade de extinguir minha recém forçada existência demasiadamente forte para ser esquecida, uma agonia que desencadeou o que a humanidade poderia denominar as primeiras lágrimas de Deus, fato que no instante em que ocorreu não possuía essa denominação, fazia com que o espectro do esboço de meu rosto se enchesse de pequenas gotas de salinidade, nascidas das colisões entre os átomos liberados durante o encolhimento da massa escura, e, ainda mais maldita, a ocorrência desencadeou um complexo de eventos, sendo o primeiro deles o nascimento de estrelas que recobririam todo o Cosmos e que tinham sua herança genética em minhas lágrimas. Meu infinito choro a perdurar por séculos, uma agonia tão afiada quanto uma navalha que cortava a alma em milímetros e ao pendurá-la na galeria de seus troféus de dissabor, a limpava com álcool. Dor infinita como os enfeites de firmamento que catapultei em cada soluçar, continuamente extenuante e movida pelo deslumbramento da quântica. Em determinado momento tornou-se menos sensação e mais pesar, em primeira instância uma dura psique e momentos depois um físico volume pendurado ao redor de meu pescoço que nem ao menos existia concretamente, entretanto o Universo é meu mestre, eu sou apenas uma figura decorativa no Infinito, nada além de uma lenda retorcida e recontada de acordo com o livre arbítrio cultural, por isso aceitei de bom grado o fardo do caminho, o depois era apenas o depois e mais nada, o futuro era apenas o lixo retorcido da memória, o passado que insiste em tentar sobreviver através de previsões sobre o que está por vir, o peso a carregar era meu presente, e como a relatividade do tempo dever ser respeitada eu deveria reclamar o menos possível, então as lágrimas deram lugar ao suor, do esforço ulissiano nasceram marcas que jamais deixariam minha pele humana, e, por essas cicatrizes é que os suores corriam, e delas, que nasciam em um número crescente tanto quanto o peso de aglomerava, dependiam o destino de tudo o que surgiu na sequência. Planetas, galáxias, meteoros, supernovas, elementos químicos, todos os importantes míseros componentes formadores da vida. Nitrogênio derivado da fenda temporal direita, oxigênio do sulco occipital lateral esquerdo, ozônio do seio sagital meridional, hidrogênio do sulco parietal direito, todas as coisas que tiveram nome posteriormente nasceram de minha secreção, esse presente do poder criar algo à partir de uma célula sua que o Cosmos deu-me foi talvez a pior maldição que me foi atribuída, carregar esse fardo de criacionismo quando na verdade nenhum de seus poderes são realmente seus, mas sim aluguéis com alto valor e prazos míseros para o pagamento, não podem ser chamados de bênçãos, mas o pior ainda seria revelado no decorrer de minha existência, quando a ideia de que eu sou o criador de todas as coisas e que não existiu nada antes de mim tornou-se o reduto da crença de milhares de seres humanos, o que na verdade explica porque foram feitos através de meu escarro e vômito. Se ao menos existisse uma testemunha, poderia eu recostar minha cabeça em meus alugados poderes na eternidade e jamais ter que surgir dentro dessa latrina chamada Terra, mas ela não existe, o criacionismo surgiu da ignorância e eu como Deus tenho a obrigação de aguentar essa meca de lixo intelectual. Uma testemunha definiria minha posição de instrumento da metafísica biomecânica quântica do surgimento do Universo, jamais me colocaria na posição de onipotente, onipresente e engenheiro das Galáxias, porém essa maldita testemunha não existe, e assim sigo vazio, o mundo repleto de ignorantes e minha existência ligada à deles por toda a eternidade. Jamais imaginei tamanho sofrimento.

7 de fevereiro de 2014

Antes do nascimento do Universo eu permaneci adormecido por longas passagens do que costuma-se chamar tempo, minha cria gosta de dizer em nossos encontros que esse período vivido de trás para frente, enquanto a massa escura tentava expandir-se em algum lugar dentro de mim, foi a única prova de minha bondade. Sempre dizia a prima forma generosa aconteceu enquanto eu permanecera dormindo indefinidamente, e que depois do despertar de minha consciência ao existir, qualquer traço de compaixão que pudesse florescer dentro de meu infinito ser nunca mais poderia ser concebido, essa foi a ímpar cena onde dei espaço à um outro tipo de matéria deixando minha própria existência em segundo plano, um engasgo evolutivo onde entendi o altruísmo do deixar crescer algo externo independente de minha vontade, deixando-me assim possuir por uma involuntária forma primitiva do que vim a criar depois, o chamado amor, e que jamais consegui compreender ou deixar tomar-me por ele novamente. Obviamente que a ideia dela era completamente infundada, porém é preciso entender que nem mesmo ela tinha ciência, quando discursava sobre minha inabilidade em amar, desse seu erro de julgamento. Porém existe uma quantidade de verdade nesse conceito de existência concebido por minha cria, visto que jamais consegui realmente sentir algum tipo de afeição por nada, nem um único traço de felicidade ao ver o despertar dos cães caçando migalhas, envoltos em nuvens aristotélicas saídas dos cachimbos de crack de seus donos, moradores inebriantes e saltimbancos do Elevado Costa e Silva, pelas luzes que emolduravam o escuro nas alamedas de tijolos soltos e gramado semiúmido de urina na Praça da República¸ nenhuma curva de sorriso ao refletir o sol nas nascentes poças em bueiros repletos de lixo em uma tempestade de verão, nada que esboçasse uma quinquilharia dental mais larga ao ver que o vento, construindo-se em dobras atemporais no formato de seus canalículos, empurrava com maestria as nuvens Ozymandias, presenteando o céu cinza, poluente e anêmico com pequenas anedotas, inexistente empatia com as saias nos tempos mais desérticos, as saias a emoldurar genus valgos ou varos, genus que entreolhavam-se por entre as casas costuradas, as casas em formato vaginal alojando em seus pequenos lábios distorções por onde se forçava a entrada de seus inquilinos, os botões, moradores que sonhavam cotidianamente em manter sua vida menos miserável ao conseguirem alcançar a epiderme de orvalho, botões rodeados por pregas estridentes que permaneciam como longos penteados encaracolados, as pregas, lançando tentáculos por toda a extensão norte sul leste oeste das pernas, pernas em canvas desenhadas originalmente por mim mesmo, espaçadas como dois compassos simétricos à uma paleta de palavras que descreveria cores inebriantes dentro das saias, as saias, pregas e as pernas, os genus, nada disso era capaz de soltar um único gemido de felicidade em mim, nada, o mesmo nada filosofal que ninguém define, o mesmo nada, berço de meu nascimento, seja esse talvez o ponto e a morada de todos os problemas que aconteceram no decorrer da vida dela, o meu nada sempre foi extremamente maior do que qualquer conjunto de invenções ou somáticas soluções inventadas pelos meus descendentes seres humanos, nunca existiria uma única sombra de esperança esverdeada para que a felicidade nascesse dentro de minha suposta alma, isso explica a desmensurada escuridão que recobriu tudo sobre ela, pois eu sou ela, e ela eu, unidos pela única centelha que nos torna (todos) siameses, a melancolia.

5 de fevereiro de 2014

Uma única alma ali in loco, presente e esperando os acontecimentos desenrolarem-se, não havia. Ninguém apto em colocar um rosto nesse nada, uma arrumação de cabelo que pudesse lembrar a humanidade como seriam marcantes seus traços faciais, suas orelhas ternamente alinhadas aos seus ossos occipitais, a borda de sua pele alterando tons rosáceos e avermelhados ao receber raios solares em seu rosto, o queixo levemente arqueado como se fosse um portão medieval guardando a grande via de entrada do largo pescoço, que, desdobrado em duas metades sinestésicas vislumbrariam ombros de rodamoinhos cósmicos, braços longos e firmamentos de falanges, somar-se-iam ao tórax angulado de formações retangulares espaciais, protegendo um quasar com dois átrios e dois ventrículos em compasso redobrado, pernas inalcançáveis terminando uma conjugação biomecânica dessa única e solitária testemunha sobre como o nada se tornou o Universo. Entretanto, esse querer vai contra toda minha teoria, já que se existisse ocular visão dessa terceira parte interessada em disseminar conhecimento, o nada já não seria tão nada assim. Um relator de fatos tornaria o acontecimento compartilhado por duas consciências astrais, a minha e a do outro, sendo assim, uma visita nesse momento obviamente colocaria em risco a soberania tirana da qual não abro mão, e, que com tempo mostrou-se de primordial obrigatoriedade não fazê-lo. Por isso o caos que hoje existe diante das milhares de teorias a respeito de como tudo começou e se sou ou não verdadeiro, faz parte do meu jogo. Uma verdade que não tem a menor relevância em ser descoberta, pois meu controle perderia o sentido nessa nova realidade, assim, perdendo meu sentido, não mais teria minha valia dentro desse mundo. O que para todos os seres humanos teria ares de catástrofe, pois tenho em minha imaginação que nenhum deles queira me ver profundamente nervoso. Pois que seja então esse o começo de tudo, muito antes de poder criar no oitavo dia minha mais linda cria, assunto que realmente importa nesse relato.

4 de fevereiro de 2014

Existe sempre o vértice de explicação ineficaz, como as resenhas dentro das canções populares dos anos oitenta a pregar uma salvação destrutiva, entretanto dentro desse fato tópico, repleto em maledicências ou teorias absurdas falta um tipo único de descrição, uma conjunção de elementos que construiriam uma indestrutível tese sobre o que é e como perceber o nada, um estudo geofísico de lisura tamanha que ninguém poderia sequer questionar a veracidade de seus pensamentos, uma explicação que fosse embasada em uma testemunha ocular, essa era a pedra que faltava para que todas as respostas fossem dadas. Uma testemunha, um olhar físico e palpável dentro da construção do todo, capaz de definir por suas observações dos iniciais acontecimentos dentro do Universo o nada. Irrefutável como as agudas insinuações nas claves de Barrett, onde bicicletas eram morada dos gatos satânicos de estimação e as declarações de amor deixavam-se levar por emancipações da aura, e, ao invés de recobrirem-se com medo pelo desconhecido, embarcavam de uma vez por todas em uma paleta de cores circulando a estratosfera da Terra, onde as escalas em oitavas com base em um interminável dó um dois e dois um refastelavam-se nas expansões dos acordes dominantes da sétima, que serviam de término onde o sol era úmido, when I was alone you promisse a stone from your heart, my head kissed the ground, e assim tudo recomeçaria, pelas sólidas estocadas esquizofrênicas dessas letras trocadas como uma ímpar numeração correndo em uma linha descendente incessante, eis as testemunhas vivas de uma criação dentro da única pureza que realmente consegui ver em todos esses anos, o Caos. As cordas eram testemunhas que enquanto fossem percutidas continuariam a disseminação da tese, e uma testemunha era o que faltava para que finalmente todas as questões desse mundo pudessem ser resolvidas, algo, que até onde consigo perceber minha existência dentro desse redemoinho analógico de sinapses, não existe. Uma única alma ali in loco, presente e esperando os acontecimentos desenrolarem-se, não havia. Ninguém apto em colocar um rosto nesse nada, uma arrumação de cabelo que pudesse lembrar a humanidade como seriam marcantes seus traços faciais, suas orelhas ternamente alinhadas aos seus ossos occipitais, a borda de sua pele alterando tons rosáceos e avermelhados ao receber raios solares em seu rosto, o queixo levemente arqueado como se fosse um portão medieval guardando a grande via de entrada...

(continua...)

3 de fevereiro de 2014

3 

O único entrave era que ninguém conseguira ver o nada.

Não por falta de interesse ou tentativas, mas por ser inebriante e impalpável. Essa aura sacra ao nada era uma veia metafísica existencial injetada ao longo dos séculos, o que o tornava um santo grão invisível. Ao mesmo tempo em que sua existência preconiza acreditar na sua forma, o que por si só seria como crer em na presença de espíritos e planos astrais, desconhecida é uma maneira eficaz em conceber uma definição pura de maneira aristotélica, afinal, a dicotomia das coisas excedia em muito a presença do nada. Um copo cheio de água quando esvaziado ainda lhe restavam à consciência em ser copo e o ar dentro de seu interior, que ao tomar o lugar da água torna-se protagonista da cena, o escuro quando muda seu espectro torna-se claro e não se torna o nada, e vice e versa. O vazio não pode ser definido como nada, pois estes, existenciais ou não, são repletos de moléculas de ar ou entrecantos calamitosos de sentimentos que invalidam a presença da completa falta de matéria, o vácuo também inexiste nessa definição do nada, pois existem as pressões e limites do espaço físico, podendo ser uma embalagem de café ou a minha caixa de areia chamada Cosmos. A definição do nada como a ausência ou falta de alguma coisa vai contra sua própria existência. Sendo ele a absoluta falta de preenchimento, ainda lhe sobra à percepção de ser nada pelo outro, pelo seu antagonista e por sua nêmese, assim sendo, o nada já pode ser considerado um pedaço do tudo, seu antagonista determinado na curvatura mais clara ou escura do yin e yang, sem nenhuma real intenção em sentir-se único, apenas uma parte do completo estado bruto de existência, porém sem uma definição concreta estabelecida pelo homem muito menos por mim. E esse era o problema. Como explicar o nada, como determinar o que ele é, se para os relojoeiros do universo chamados astrofísicos, até o nada dentro de meu universo é chamado de massa escura. Complica-se muito mais a história dessa definição, porque como algo que é nada pode ser uma massa escura. Existe a massa, então não existe o nada. A massa é o nada e a massa é o tudo que contém também pedaços de nada, parte de pedaços de tudo. O tudo, o nada e a massa, a massa, o nada e o tudo. Ninguém conseguia entender esse pedaço de meus trabalhos, na verdade, essa parte de minha história, mais precisamente meu nascimento e como acabei criando tudo depois.

(continua...)

29 de janeiro de 2014

2

A primeira coisa que ele inventou, contou-me isso depois de algum tempo que nos conhecemos, foi o cigarro. Muito antes de colocar sobre a terra a primeira versão de pornografia com objetivos masturbatórios, onde um casal transava inadvertidamente por entre as matas, rios e lagos em sua maioria quase todos desabitados quando não com alguns répteis apenas. No tempo onde o par romântico robótico, um homem e a mulher de sua costela, costumavam enveredar em atos sexuais quilométricos, ele por vezes voltava ao velho vício de gênese prima, envolvendo o bastonete de nicotina por entre seus longos dedos, girando-o quase sempre em sentido anti-horário, equilibrando suas habilidades de maneira singular. Conseguia manter esse foco ao fio de longas horas ou submerso nos estrondos proferidos pelos gemidos da mulher e o do homem, que nada mais sabiam sobre o lugar onde estavam, a não ser que as sensações que retesavam seus corpos os levavam sempre para o mesmo lugar hermeticamente fechado de ações únicas. Ele a tocava, ela o tocava, ele a sentia em bicos, lábios grandes e pequenos, ela o sentia em escrotos e glande, ele a penetrava, ela o penetrava, afinal, os longos dedos dela eram uma cópia fiel dos mesmos trapezistas de cigarro que seu criador possuía, e assim pela sua lógica mitótica de criação, seria capaz de sentir o penetrar de um homem e o ser penetrado por uma mulher, mesmo que fossem apenas as falanges dela. Ele me contou que logo no começo das relações sexuais dos dois, muitas vezes passava horas e horas fumando e sentindo o gosto de seus dedos, desenhando em sua boca a sua própria boca, como uma oração dita inúmeras vezes, uma reza destilada em fumaça nos cantos dos lábios sempre no sentido anti-horário, a saliva era morna e cheirava ao âmbar das árvores como um melaço resfriando-se, as unhas entumecidas roçando a língua dele deixavam notas das folhas e orvalho seco, sentia a sujeira misturando-se à saliva e os gemidos do homem cada vez mais fortes enquanto a mulher o recebia em sua boca com seus dedos em riste, o cigarro pela metade, a nicotina que invadia suas sinapses cada vez mais profundas, o feminino e o masculino dentro do seu corpo e indivisíveis, a pele dos nós nos dedos da mulher era suave e as pequenas rugas davam uma sensação de pressão, que somada ao trago do cigarro revelava uma nuance que ele descobrira naquele instante, algo jamais pensando ou produzido por ele desde os tempos da primeira cria. No sexto dia ele iniciou a criação da beleza através de todas aquelas sensações em helicoidais formas de fumaça e urros, seus dois escravos dentro daquela Terra, suas duas míseras escarradas inoculadas e confeccionadas como seres humanos dissolvendo-se em suores, intocados por tecidos ou folhas a recobrir seus corpos, soltos no ar como dois homicidas trapezistas apenas capazes de sentir o acelerar do sangue na direção de seus sexos quando no limite. A mulher redesenhava a anatomia do homem com seus dedos, a maneira em seda como percorria as arestas quase fechadas em vácuo do interior dele eram tão sublimes que ele, enquanto assistia e sentia, quase terminou o cigarro em uma só tragada. Mas esperou, segurou com seus dedos o final, enforcando o tecido mais escuro e sentindo o entumecer frenético dos trovões, era preciso esperar, esperar pela mulher desejar a língua com saliva ácida, deixar escorrer por cima do homem, recobrindo toda a extensão dele, o cigarro marcava a boca do criador, seco, despregava alguns pedaços da pele de sua boca e estampava seu sangue na nicotina, a mulher em alquimia aperta a criatura masculina mais forte e suas falanges já não esperam mais, desdobram-se em clavas dentro do homem, o homem já não mais existe, dissolve-se no submundo da fisiologia, a mulher vulcaniza-o, e enfim ele já não é mais nada, não precisa ser mais nada, ela sente sua mão esquerda abrir-se pela pressão causada durante o rodopiar final dele, o criador prepara-se, a mulher enovela sua língua e a falange ereta parte ao equinócio, o apocalipse, o gênesis e o meio, tudo em química na língua da mulher, que só após esse dia ganharia um nome. O homem acabaria recebendo uma denominação apenas por questão de ordem, não por gosto de seu criador.

Não existiu depois desse episódio mais alguma intenção dele em estabelecer preceitos ou castas nas gerações futuras, porém o criador já sabia que por longos anos algum tipo de cocaína ideológica seria necessária para que certos escarros humanos possam viver sem saber de tudo isso que ele vivenciara, mas Andy não está preocupado com isso agora, ele apenas sente suas criações, os pedaços delirantes de sua lisergia em movimento, engole o último pedaço de nicotina.

Ele gostava de me contar isso sempre nas primeiras vezes que nos encontramos, talvez por achar que fosse me sentir chocada com alguma coisa, porém sempre disse a ele que isso era apenas exibicionismo e que se fosse contar algo que ele me contasse como inventou primeiro o câncer e só depois o amor. Andy nunca gostou de ser interrompido, muito menos chamado de imperfeito, também nunca fora motivo de alguma alegria por parte de sua alma (se é que a possuía) questionamentos quanto sua postura diante da ordem como todas as coisas foram criadas ou até dos motivos - estes muito mais torpes do que qualquer ser humano pudesse imaginar -. Contentava-se em dar esparsas explicações e como todo menino com uma eterna dose de egocentrismo, inúmeras vezes durante nossas conversas ele simplesmente dizia que as coisas eram assim, pois elas deveriam ser assim de acordo com a sua vontade, e, sempre ao dizer isso usava uma de suas mais irônicas frases:
“Está na Bíblia lembra?”.

O sorriso em seus olhos quando ele dizia isso era a única coisa que me levava mais próxima a ele. O cinismo daquele que as pessoas chamavam de Deus era a ímpar característica que tínhamos em comum, talvez até um pouco do sadismo ou da genética suicida, porém era só. Isso avivava minha memória durante o tempo deitada no quarto do hospital, pois ficava a lembrar de quando comecei a entender quem era realmente esse ser que as pessoas temiam e que para mim não passava de um drogado sadomasoquista que sempre aparecia em minha frente usando um boné sujo de caminhoneiro e barba por fazer de duas semanas, sempre fumando um maldito cigarro Marlboro Lights, o que me irritava mais ainda, afinal de contas como o maldito ser onipresente e que nunca contrairia câncer de pulmão, tinha a capacidade de fumar algo que parecia menos um cigarro e mais uma latrina.

22 de janeiro de 2014

1 

Amarente

O sangue morto descansava no palato.

Mais importante do que tentar abrir os olhos, era precisar se estava viva ou não. Uns poucos suspiros herméticos ainda não encontravam reverberação dentro do peito, e, menos por precaução e mais por uma lacerante fraqueza, não conseguia sequer levantar os braços para tentar enxergá-los. O que acabaria tornando-se uma tarefa ainda mais ingrata, afinal de contas as retinas estavam embaçadas e cobertas por algum tipo de pomada, dificultando ainda mais as frustrantes tentativas em manter uma conversa racional com o meio ambiente. Homeostasia enfraquecida pela inércia do tentar morrer em cada inspiração forçada. A incapacidade em cortar-se ao meio e depois sobreviver colocadas em jogo naqueles iniciais instantes, onde marejados olhos em vão moviam-se. Existia um reconforto por estar deitada sem nenhuma sensação de esforço corroendo os músculos, porém era só isso. Uma bolha de tempo onde estava imersa. O mundo resumia-se apenas nas tentativas de entender onde estava e como estava. Antes, porém era preciso tentar abrir os espelhos da alma e redescobrir o foco nas órbitas. Os castanhos claros olhos durante muito tempo foram meus dois faróis internos, quando procurava desesperadamente saber quem era ao olhar-me no espelho. Os mesmos perdidos globos oculares que agora lutavam para abrirem-se foram portos no tempo onde tentava em vão salvar-me, entretanto, hoje lutavam contra minha vontade em morrer, esta, que não me deixara dormir durante toda a noite, esta, que trouxera o desespero dentro dos restos meus que sangravam ainda depois de quase doze horas. A morte não me fazia mais companhia, mas eu a queria, sedenta estava ainda pelo amargo gosto que ela deixou, sussurrando gemidos em minha vagina renascida, em tremores de pele eletrificada o vento em suas mãos tomou-me por completo com vociferação aguda, tombando-me em velocidade terminal, alvejando, retorcendo minhas mãos, amando minhas entranhas com sofreguidão exilada, torceu-me como se as notas fossem apenas possíveis se tocadas ao mesmo tempo, lambendo meus seios com luz, atravessou-me as coxas deslocando um rastro de ódio e sangue ejaculados incessantemente em cada inspiração forçada dentro da sala onde nos tocávamos. Minha morte e eu. Expulsas parasitas que sempre fomos de todos os que nos rodeavam, duas amantes ladras desavisadas sobre o destino carcerário onde nos encontrávamos no dia de hoje. Soltas pontas de fios desencapados sem o menor condicionamento ao não destruir ou atacar.

Ao final de todas as conclusões, sempre fui muito parecida com minha morte, mesmo sabendo que agora estava lentamente deixando-a sem ao menos uma carta de despedida, como meretriz varrida da minha consciência após uma noite de sofreguidão paga e coberta de cocaína. Esquecida ela iria aos poucos esvaindo-se nos restos de minhas células sanguíneas e nos pedaços das cascas nas feridas posteriormente nascidas ali em minhas profundas cicatrizes. Morreria sem deixar testamento, um dia ressuscitaria mais forte e enfim levaria os restos de corpo e as esparsas manifestações de minha alma. Atravessaria uma última porta sem chaveiro ou maestro e colocaria um corpo inerte ao lado de meu maldito criador. Mas isso aconteceria muito tempo depois de hoje, pois promessas feitas dentro da lava quente jamais poderiam ser quebradas, mesmo as feitas por um homicida serial que usa seus truques para causar ilusões em massa.

Entretanto era preciso ater-se ao fato de que aquele cheiro entorpecia rapidamente e meus olhos necessitam uma pequena abertura para leves entendimentos geográficos. O eucalipto alvejante invadiu minhas narinas aos poucos, como sangue que escorre por pequenos cortes na junção entre a cutícula e os dedos. Menos pelo cheiro e mais pela ânsia que irritantemente custava a passar, as paredes alvas iniciavam uma dança tetraédrica. Não havia nuvens e o mundo todo resumia-se em encontrar erros da natureza através de duas janelas gigantescas abrindo-se de vez em quando no momento que o vento desenhava suavidades vagarosas a entrelaçarem-se com os fechos destrancados, construíam assim insinuações sonoras de desalento, onde as pausas em silêncio de movimentos eram partes essenciais da construção, cresciam como uma camada de fino ar que adentra por baixo da porta amadeirada entreaberta, o silêncio permeando os cantos do chão e subindo pelas paredes até encontrar as claves do ar que se movimentava através de artelhos precisos e vagarosos dos fechos, imediatamente podia-se sentir o crescer da música através das janelas. Precisa, vagarosa e visceral como um jazz de Bix Beiderbech.
Acordada enfim estava com a sensação de que os segundos não corriam mais rápidos que nada. O céu parecia de uma cidade qualquer e deixava revelar pedaços planos de nuvens achatadas em uma cor branca com as paredes do quarto. A cama férrica e os lençóis ligeiramente amarelados e cinza industrializavam-se, havia amarras de couro em cada lateral da cama e meus braços repousavam dentro delas, a porta entreaberta revelava a passagem de uma sombra disforme a cada cinco minutos. Horas cada vez mais intermináveis nunca chegavam a sequer começarem, e meus ouvidos há muito tempo já davam sinais concretos de que explodiriam, tive a sensação de que poderia deixar esse céu demolir-me por completo. Tentei então imaginar-me fora daquele quarto, caminhando por entre os carvalhos de minha rua em direção à garagem. Muito perto do meu café predileto, logo pela manhã. Passo por ele sem ao menos esboçar um bom dia. Sei que meu desjejum ficou de cartola fora da cabeça, pedindo conselhos aquele famoso chapeleiro de Alice. Mas era assim que eu andaria, despida de nutrientes andando por todos os locais que a imaginação realística pudesse fornecer ao meu instinto de arrancar aquelas amarras e terminar o que deveria ser completo, um esforço sobre humano em tentar sobreviver pelo menos durante esse dia. Só por hoje eu amaria a minha vontade em não ver meu corpo sangrar até o fim, mas só por hoje. Era preciso concentrar-se, era preciso continuar a andar por entre as ruas irreais dessa manhã. Não era misericórdia, muito menos uma tentativa de catedrática erudição ou redenção com data de validade expirando em fungos acéfalos. Era apenas um grito, a forma mais primal de ligação entre os seres humanos, o mais possível pedaço de estrutura da alma. Um não calar, vomitar ou esparramar pelas bordas da vida uma ejaculação quente e modorrenta. Um berro gutural nascido em ressurreição, como se possível fosse despedaçar a pele e unir suas células em uma onda reflexiva e refratária de som, seria enfim nascer. O vento dentro do quarto me leva mais fundo ainda em minha hipnose e o caminho por onde passo abre-se mais. Olhava rostos nas ruas e sabia que muitos daqueles que me viam entendiam o que eu era pois seus reflexos ali jogados estavam. E quando eu olhava bem dentro de seus olhos me diziam que éramos iguais. Um sinônimo humano que deambula pelas lateralidades do mundo, uma fenocópia desigual. Porém universalidade jamais será o que todos querem, pois em cada descobrir de minha face, as pessoas retiravam seus olhares e isolavam meu sorriso, como se escrava fosse minha alma e essa denegação fosse uma chibata. Sentia dentro de mim cada empalamento de ódio por mostrar que era eu um pedaço de todos e que eles eram um pedaço de mim. Nossas vidas amalgamadas segundo a segundo por algo que jamais veremos. Enquanto andava entendi os porquês de tudo aquilo.
Percebi que todas as dores, cortes, agulhas, tesouras, pós-mágicos, dedais, marionetes, colunas sociais, igrejas matrizes, chiquinhos padres, tatuagens, amigos mortos, amores postos, narizes sangrando, veias pulsando, dores abertas pelo tempo, pulmões em colapso, não eram nada e jamais significariam alguma coisa, pois quando descobrem-se iguais ao outro dentro da alma, as pessoas tendem ao homicídio coletivo e higienista. Rezam de joelhos em suas igrejas pedindo um mundo mais unido, porém ao ver meu rosto igual ao deles, sentem asco. Entendi que nada daquilo que experimentei e o que tornei-me seria de valia aos olhos terceiros, como sempre. O cotidiano da aceitação sempre foi imperfeito e assim as pessoas conseguem um equilíbrio com suas próprias neuroses, impedindo-as de viver da maneira que realmente interessa, livres de amarras. Naquele quarto, embebida em sangue coagulado e janelas de jazz, finalmente entendi qual a realidade a ser vivida depois que abrisse novamente os olhos. Foda-se Andy, foda-se o cartesianismo. Sou livre como jamais serão nenhum destes que veem meu reflexo como sendo eles mesmos e vomitam distorções normativas. Amarente sim e para sempre. Amar rente.

Não saberia dizer se foi realmente no dia de minha quase morte que tornei-me eu, ou isso foi um aglomerado de dias que passaram sem perceber que estava nascendo aos poucos, a única coisa que sabia com certeza, após abrir novamente meus olhos e sentir que o sangue enfim terminara sua trajetória descendente ao chão, era que seria necessário de minha parte colocar tudo isso em palavras, para que esse grito ao som de um Bix exteriorizado dentro de meu lisérgico cérebro fosse ouvido nem que fosse apenas por esse novo eu que pariu aos berros dentro de alvas paredes e ventos leves.

5 de novembro de 2013

1
Prefácio

O sangue morto descansava no palato.
Mais importante do que tentar abrir os olhos, era precisar se estava viva ou não. Uns poucos suspiros herméticos ainda não encontravam reverberação dentro do peito, e, menos por precaução e mais por uma lacerante fraqueza, não conseguia sequer levantar os braços para tentar enxergá-los. O que acabaria tornando-se uma tarefa ainda mais ingrata, afinal de contas os olhos estavam tão embaçados e cobertos por algum tipo de pomada, dificultando ainda mais as frustrantes tentativas em manter uma conversa racional com o meio ambiente. Homeostasia enfraquecida pela inércia do tentar morrer em cada inspiração forçada, a incapacidade de cortar-se ao meio e sobreviver colocadas em jogo naqueles iniciais instantes, onde marejados olhos em vão moviam-se. Existia um reconforto por estar deitada sem nenhuma sensação de esforço corroendo os músculos, porém era só isso. Uma bolha de tempo onde estava imersa. O mundo resumia-se apenas nas tentativas de entender onde estava e como estava.

4 de novembro de 2013

2 Amarente...

O dia em que resolvi escrever sobre minha vida não haviam nuvens e tudo resumia-se ao contrariar o erros da naureza. Acordada com a sensação de que os minutos não corriam mais rápidos que nada. Naquela quarta acordei no automático. As roupas não foram escolhidas, em inércia colocadas e nem ao menos fora eu a vestir-me. O céu de uma cidade qualquer, que hoje eu não sei se lembro, um beijo cortou minha alma e me disse: "Hoje não é dia de nada, hoje é dia de sobreviver". Revoltei-me com a ordem. Como assim sobreviver apenas, depois de tudo que passei para chegar até aqui, eu queria mais. Queria sempre mais de mim e de todos. Queria todos acordados e dançando como Björk, todas as minhas veias gozando pelo quente afago das nuvens. Queria elas explodindo pela ação de qualquer agulha. Eu não poderia deixar esse céu cinza demolir-me por completo. A possibilidade em voltar ao início, dentro daquele misógino útero de repressão em lava não era um opção atraente. Seria muito mais útil o suicídio.
Entretanto, sai no automático de casa. Caminhando por entre os carvalhos e roseiras em minha rua em direção à garagem. Muito perto do meu café predileto, logo pela manhã. Passei por ele sem ao menos esboçar um bom dia. Sei que meu desjejum ficou de cartola fora da cabeça, pedindo conselhos aquele famoso chapeleiro de Alice. Mas era assim que eu queria, despida de nutrientes. Nessa manhã percebi a aproximação de minha história com vontade em deixar neste mundo meu grito. Não era misericórdia, muito menos uma tentativa de catedrática erudição ou redenção com data de validade expirando em fungos acéfalos. Porque um grito é a forma mais primal de ligação entre os seres humanos. Apenas um grito, o mais possível pedaço de estrutura da alma. Um não calar, vomitar ou esparramar pelas bordas da vida uma ejaculação quente e modorrenta. Um berro gutural nascido em ressurreição, como se possível fosse despedaçar a pela e unir suas células em uma onda reflexiva e refratária de som. Isso seria enfim nascer e nunca mais voltar. Isso seria enfim a morte desses artefatos de tortura que prenderam durante anos meu corpo em desafinação.
Olhava os rostos nas ruas e sabia que muitos daqueles que me viam, entendiam o que eu era. Porque os reflexos de seus espelhos, ali jogados estavam. Nas suas caras, em pleno dia. E quando eu olhava bem dentro de seus olhos eles me diziam que éramos iguais. Um sinônimo humano que deambula pelas lateralidades do mundo. Fenocópia desigual do seu terceiro corpo. Então eu sabia que minha história era a mais comum, mesmo assim universal. Porém universalidade jamais será o que todos querem, pois em cada descobrir-se em minha face, as pessoas retiravam seus olhares e isolavam meu sorriso em uma cela de segregação invisível. Como se escrava fosse minha alma e essa denegação fosse uma chibata. Sentia dentro de mim cada empalamento de ódio por mostrar que era eu um pedaço de todos e que eles eram um pedaço de mim. Nossas vidas amalgamadas segundo a segundo por algo que jamais veremos. Naquela quarta morri novamente, violentamente e pausadamente. Foi o dia onde entendi os porquês em tudo aquilo. Percebi que todas as dores, cortes, agulhas, tesouras, pós mágicos, dedais, marionetes, colunas sociais, igrejas matrizes, chiquinhos padres, tatuagens, amigos mortos, amores postos, narizes sangrando, veias pulsando, dores abertas pelo tempo, pulmões em colapso, não eram nada e jamais significariam alguma coisa, pois quando descobrem-se iguais ao outro dentro da alma, as pessoas tendem ao homicídio coletivo e higienista. Rezam de joelhos em suas igrejas pedindo um mundo mais unido, porém ao ver meu rosto igual ao deles, sentem asco.
Nessa quarta que entendi, nada daquilo que experimentei e o que tornei-me seria de valia aos olhos terceiros, como sempre. O cotidiano da aceitação sempre foi imperfeito e assim as pessoas conseguem um equilíbrio com suas próprias neuroses, impedindo-as de viver da maneira que realmente interessa. Livres de amarras. Nessa quarta eu já sei a resposta. Foda-se Andy, foda-se o cartesianismo. Sou livre como nunca jamais serão nenhum destes que veem meu reflexo com sendo eles mesmos e vomitam distorções normativas.
Amarente sim e para sempre. Amar rente...

Não saberia dizer quando tornei-me eu. Mas sabia dizer quando sentira o amor pela primeira vez. Não aquilo com o vizinho de cerca, que se revelou um mero coadjuvante. Mas sim aquele que devasta. Tira sua cabeça de qualquer atmosfera elevada em dez a vinte três moléculas, jamais apagado das cadeiras escolares, as mesmas que me jogavam na infância. Sempre lembrei a primeira vez em que descobri o amor Scarlett O’Hara. Lisergia de perder-se dentro de um ser completamente novo, sentir-se inteira, pulsar a vida de dentro de um corpo cansado da guerra. Muito mais que sentir na alma, amar era rente. Mas não foi sempre assim. Descobri isto não da melhor maneira, nem da mais rápida. Porque simplesmente não sabia o que era, nunca sentira de verdade, era apenas esboço seco.

Folhas amontoando-se na varanda. Uma noção de amor não passava do seguir platonicamente as figuras que mais chamavam a atenção, naquele cinza quarteirão onde tinha minha morada secreta. O casarão quase repousando na esquina da rua, onde minha paciência inesgotável jazia lenta através do corpo roto. As paredes perdendo a tinta por entre o concreto em cores arenosas e vermelhas da poeira no outono. O eco dos ventos no assoalho onde me deitava, enterrada os fones de ouvido repassando o dedos em cada célula de areia a fundir-se com minha alma. Aquela casa foi meu refúgio durante anos, enquanto deteriorava-se a de meus pais. Descoberta nas minhas fugas de socorro, era minha alva mater de redenção. O lugar onde eu podia viver tudo aquilo que sonhara antes mesmo de acontecer, as danças mais lindas e canções mais apaixonadas eram apenas minhas. A menina escondida por entre o rosto marcado de cicatrizes e escaras psicológicas dentro daquelas paredes envelhecidas tornava-se ímpar. Amada como o corte mais profundo da navalha na carne, aquela casa sempre foi o local onde conhecia todos aqueles por quem me apaixonava e jamais conseguiria fisicamente chegar perto. Conversava com todos eles, sozinha dentro de uma casa abandonada. Não sabia o gosto dos lábios de meus amantes, mas já vivera todas as cenas dentro em meus cobertores. Em noites onde a lua e o frio faziam da sacada floresta. Era assim sozinha que imaginava. Não sabia se conseguiria amar alguém, afinal de contas sempre fui ensinada que não deveria. Programada para ser um monstro, anormal. Não passava de sombra por entre os mundos. Mas dentro de mim sabia que não, mas não sabia ainda. Imaginava que tudo o que aconteceu iria acontecer, porém jamais imaginei que tudo começaria dentro do meu território particular e escondido. Uma mudança que iria durar anos teve seu início no tempo onde eu mais tentava dizimar meu corpo por entre as madeiras daquela velha casa abandonada. Não são assim que as verdadeiras mudanças devem ser?

Por entre abertas tardes, quando não me escondia, percebi por entre a sacada de sonhos, que alguém pelas beiradas espreitava sem querer. Passando pela calçada nem a notou instantaneamente. Passara apenas olhando quanto o prédio vizinho crescera nesses últimos meses. Concreto e madeira de lei, trazida ilegalmente. Tinha pelo menos alguns grandes andares completamente prontos. Homens perambulando pelos parapeitos herméticos e abertos em seus capacetes. Ele adorava pensar que os operários nasciam com asas embutidas, caso o acaso trouxesse uma queda. Pensava como seria morar naquele prédio. Sobre a piscina e seus círculos químicos denunciantes, a quadra aonde poderia jogar aquele gol a gol com seu vizinho chapado. Pensava nos churrascos na sacada, suspirava. Depois abria um sorriso e sabia, jamais.

"Essa vida cartesiana não me pega".

Assim continuou sem perceber que estava sendo observado havia algumas semanas. Uma pequena flor de lótus balançava por entre a sacada. Não havia escapatória. Sempre soube que seu destino era ele e mais nenhum seria possível. O choro do conformismo latia como cão vadio por entre as pernas. Eu era uma menina que crescia dentro de uma armadura. Não ganhara nada além de dor, mas enfim era a minha vida.

14 de fevereiro de 2013

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A cria do oitavo dia...


E era assim que ela estava.
Dentro de seu casulo, protegida por todas as paredes da casa. Não tinha em seus olhos mais nada, a não ser duas pupilas sólidas que a levavam em direções e lugares de onde ela não poderiam mais sair. A escolha dela tinha sido única e concreta. Nada mais valeria a pena, se não fosse daquele jeito. Nada seria tão laconicamente visceral, antes do deserto nascer. Ele veio com força de doze trabalhos, em oceano devastado por geleiras e anemofilizado pelo vento. O mesmo que cortava a janela de seu apartamento, deixando a sensação de riso nervoso. Na sua frente apenas um quadro comprado porque ela simplesmente achava que as pessoas não entendiam o que ele passava, por isso tinha que ser apenas de Phoebe e mais ninguém. Lembrou quando o viu ao redor dos pseudo-intelectuais do comércio, salivando como coiotes em cima de peles soltas. Sem saber o que as cálidas cores costuravam. Ela riu internamente, pois sabia que não era uma questão de admirá-lo. Permanecer dentro dele era primordial. Phoebe sempre gostou de encarar a pintura com suas cores e tentar ficar o maior tempo possível dentro delas. Isso calava suas paranóias e acalmava seu corpo latente. Hoje ela não iria sair tão facilmente, pois o caminhar seria executado dentro da tela.
No segundo onde a pálpebra fechou-se pela terceira vez, ela colidiu com a tela. Estacionou o endoesqueleto em frente à parede morna e sudorípara. Fixamente marcando as margens da tela, ela suspirou lentamente.
Com os pulmões todos cheios, amarrou seu escafandro, checou os fios e saltou para o mar de tinta. Sentiu suas mãos fundindo-se a cada gota, passou por entre os verdes, vermelhos e azuis. Seus pulmões enchiam-se com oxigênio eletrolítico, que vagarosamente absorvia os bronquíolos, preenchendo cada hematose pulmonar com partículas com as variadas colorações. Seu torso nu deixava exposto o tingir de cada centímetro da epiderme, mudando a coloração em cada batimento. Então finalmente, mergulhou no vasto mar em névoa arroxeada. A água era calma.
O ar abundante em seu tubo de oxigênio, a deixava flutuar por mais espaço. Phoebe agora tinha o controle de todo o mundo em sua volta. Rainha de copas submarina, imersa dentro de um corpo que se dissolvia e solidificava quando ela queria. Ousou tomar formas e retirar pedaços. Ser algo a mais dentro da água. Deixava a força lisérgica salinizada do oceano fazer sua parte. Suas mãos eram extensões de um molde que mudava a cada segundo, deixando sua alma em mosaico. Metamorficamente ela observa o local onde agora não mais usa suas habilidades natatórias, mas sim anda por entre o fundo do oceano arroxeado.
Um bairro estava instalado na camada mais profunda, alguns centímetros da borda inferior esquerda do quadro. As ruas eram calmas e carros astrais circulavam sem escapamento, com suas rodas em liga leve de plástico. Dando passagem sempre que um cardume atravessava a grande camada de cimento formado por nuvens pavimentares.
Phoebe observava tudo atenta, maravilhando-se a cada detalhe. Olhou para cima. O fio que trazia o ar para dentro da água, ainda pairava na borda do quadro. Ela tinha o controle.
Pelo menos esse era o pensamento nesse instante.
Passando por entre as casas, viu seu jardim. O mesmo que acolheu o seu nascimento. Olhou novamente e viu seu pai abraçar Lorna com carinho em furor, trazendo um rubor catatônico em sua face. Eles então se amaram assim, enfurecidamente ao ar livre, sob a face derretida de um sol cristalizado, que iluminava o jardim naquela noite. Os dois, pai e Lorna, trocaram juras de todos os amores que nunca tiveram. Olhares ternos quando acenaram por entre os cavalos marinhos cocainômanos, que estavam presos em túbulos ligados ao centro nervoso de algumas algas fixadas no fundo do mar.
Phoebe passou pela varanda e correu por entre os pinheiros, livre de amarras. Rápida, sentia todo o ar passar por cada poro e cada gota do oceano fundir-se ao suor.
Atravessou sua antiga casa e sentiu todo o desespero ir embora. A calma instalara-se de maneira definitiva. Chegou como a amiga de sempre.
Phoebe estava salva enfim.
No fim do quarteirão ela percebeu algo diferente. A rua acabava em duas cascatas de estrelas marinhas, que na sua trajetória descendente batiam por toda a extensão dos rochedos. A cada pancada, um pedaço de sua estrutura tornava-se lama. Esse pedaço estelar em brasa durante o caminho tomava a forma sólida e escura, fazendo com que o chão ao redor das duas quedas fosse todo transpassado por buracos. Ela atravessa as duas cachoeiras com um sentido de medo. Mudança dramática na trama que poderia ser roteiro de um filme repleto de infantilismos. Mas Phoebe sabia que essas cenas não eram Disney e sim Romero.
Depois das quedas, apenas o chão árido. Então ela entendeu a calma e olhou para aquele deserto. Permaneceu incerta, mas a sensação de paz com sua vida passada a deixava plena em forças para o andar. Sabia que mais profundo ainda dentro do deserto deveria guiar seu escafandro. Ao atravessar a cascata, escutou pela última vez aquela velha voz lhe dizer eu te amo.
Secou seus pés na entrada, caminhou por entre as flores de pedra e as escolas velhas com jovens dentro de cada janela.
Aproximou-se do edifício que perdia alguns pedaços com o passar do tempo. O prédio despedaçado nascia por entre as nuvens de poeira seca. As paredes tinham uma coloração amarelada devido à ação dos ventos e eram cheias de poças de areia, como se cada uma segurasse um pedaço dos tijolos, que se despedaçavam formando um mosaico assimétrico em cada metro de todo o prédio. A escola não tinha muros, muito menos um pátio. Apenas ouviam-se os ecos de palavras jogadas aos ventos. Um silêncio pavoroso e vazio ao passar pela porta da frente.
Corredores como se o prédio fosse um hotel fora de temporada no meio de uma montanha gelada. Apenas o vento rei conversava com todas as quinas de portas entreabertas e de cores variadas. Em cada porta números em sequência. Em cada número uma diferente sala de aula e em casa sala, um jovem realizando uma tarefa diferente.
Uma menina de olhos brilhantes e lacrimosos costurava um vestido verde com fitas. Quando pronto, ele desfazia-se por entre o ar. Assim ela poderia começar a costurar o mesmo vestido novamente.
“Ela não sabe o que aconteceu”.
Phoebe assusta-se com a voz que lhe sussurra a frase, olha para trás e não vê ninguém. Apenas um boné do Mudhoney.
Ela se aproxima da menina, que a olha com seus olhos esperançosos e diz:
“Hoje meu bloco vai sair e não serei sozinha. Tornar-me-ei o maior estandarte”.
Phoebe se afasta. Não entendia.
Olhou em outra sala e viu um menino e suas tatuagens vivas contorcendo-se dentro da pele. Pareciam querer sair do seu corpo. O menino olha com um sorriso e sente cada partícula de tinta tentar arrebentar sua pele. Coloca seu lenço escondendo a boca, pois não quer gritar a dor. Tem uma máquina de tatuar em sua mão direita e desenha com ela em dermes artificiais.
“Estou preparando minha mudança e vou treinar nas costas de duas pessoas”. “Trabalho grande que vai me tomar tempo, mas serei lembrado por eles”. “O mundo jamais se esquecerá”.
Phoebe continuava sem saber por que do deserto trazer essas pessoas.
“Ele não sabe”. “Quer apenas sair”. “Está faminto”.
Ela vira-se novamente e não existe corpo para essa voz, apenas um boné.
Phoebe sai da escola e caminha por entre a areia fria. As estrelas lhe anunciam a chegada da aridez. Ao longe uma voz, tangenciando. Uma familiar, a voz de Andy Kaufman
Ela não acredita.
Seu pensamento obtuso e anasalado não consegue entender. Tudo isso foi obra dele. Estou em uma armadilha cínica, ela pensa. Decide então voltar.
Nesse momento seu escafandro solta-se e ela vê o fio desaparecer na borda do quadro.
Respira, mas sem o cinto de segurança. Vira-se então ao encontro dele.
“Demorou demais para chegar”. Exclama Andy.
“Não queria te encontrar”
“Ninguém quer, mas é inevitável”. “Eu sempre estou lá”. Nesse momento ele acende um cigarro e oferece.
"Não, obrigado”. ”Você sabe que eu não fumo, nunca gostei”.
“Você nunca gostou do seu corpo, mas sempre o usou também”. “Aliás, eu preciso te perguntar, como é que ele aguentou tudo isso?”. “Já sei”. “Eu te fiz forte!”. “A genética é uma das minhas maiores criações, você não acha?”.
“Na verdade eu preciso te contar um segredo”, diz Phoebe, “Meu corpo aguentou porque eu quis que ele agüentasse”. “Ele só suportou aquilo que eu queria, apenas passou por onde desejei”. “Ele mudou porque assim foi feita a minha vontade”. “E não a sua”.
"Na verdade você se engana padmé”. “Se eu te criei, só aguentou porque eu a fiz assim”. Andy traga o cigarro e solta a fumaça em forma de crucifixos, que sangram um óleo amendoado cheio de hemácias.
“Você não cansa de admirar seu próprio umbigo, é isso?”. “A humildade não foi uma das coisas que você pregou?”.
“Me reponde uma coisa então amada Phoebe”. “Onde a humildade te levou?”. “Onde a lealdade te trouxe?”. “O que seu sarcasmo ensaiado e escrito por Nietzsche te mostrou?”.  “Diga-me por que eu quero entender”. “E você sabe que definitivamente, a sua vida não foi pautada por coisas que eu possa chamar felicidade eterna”. “Eu diria que a sua vida foi pautada pelo just 'cos you feel doesn't mean it's there”.
Nesse momento Andy estala os dedos, Thom Yorke cantarola.
Andy continua. “Mas não precisa responder, eu falo”.
“Tudo isso te trouxe até mim”. “Você voltou aqui exatamente por que todas essas coisas não te trouxeram nada”. “Tudo o que eu fiz foi isso, te mostrar algo”. “E você nunca foi capaz de entender”. “Toda a vez em que soprava aos seus ouvidos o quanto te amava, você deveria acreditar”. “Deveria ser muito mais forte do que foi”. “Mas a sua resposta foi como a de todos os humanos”. “Foi fraca e você sucumbiu ao desejo do mundano, da imagem”. “Você não foi capaz de entender, que antes de mudar isso, tinha que mudar a fraqueza”. “Você perdeu sua alma em uma mesa de baralho cirúrgico e isso eu nunca te mostrei”. “Eu nunca quis”. “Você pergunta sobre humildade”. “A minha acabou junto com a inocência, ao ver meu filho no deserto ser tentado pelo meu yang”. “Ele não sucumbiu e mesmo assim foi dilacerado pela humanidade”. “Desse dia em diante, vocês são meus ratinhos dentro da roda”. “São a minha ira, minha vingança”. “Eu os criei a minha imagem e semelhança para poder fazer vocês refletirem no espelho e terem a vergonha em saber disso”. “O livre arbítrio é minha maior vendeta”.
Andy acende um cigarro com o filtro do outro.
“Escolhas Phoebe, eu te dei escolhas e você não as quis”. “Preferiu o caminho mais doloroso”. “Não que não tenha me deleitado, na minha roupa de látex preta, vendo tudo isso”. “Eu pensava que você transcenderia”. “Tinha esperança em você, mas eu deveria deixar minha esperança enterrada junto com meu ódio”. “Dentro do meu peito e escondida”.
“Sabe, eu ainda tentei te mostrar isso agora mesmo”. “Levei você para aquele prédio velho, onde os mortos não sabem que estão mortos”. “Onde as pessoas querem desesperadamente ter aquilo que eu te dei em abundância, a vida”. “Todos eles morreram antes de terminarem a maior de todas as passagens, que é viver em plenitude”. “Achei que te jogando tudo isso na cara, essa conversa não seria necessária”. “Que você entenderia”.
“Mas me enganei de novo”.
Ela o olha com ternura. Aproxima-se e o beija longamente. Suas línguas se entrelaçam. Ela sente o sabor do filtro do cigarro por entre seus dentes. Aperta-o contra o peito e seus seios revelam uma excitação sombria. I got you under my skin revela o fundo musical que não é mais controlado por Andy.
Ela o olha mais uma vez.
“Não chora mais não”. Ela disse com ternura inerente de ave maria.
“Agora entendo o que você quis me dizer durante todos esses anos”. “Eu entendo todas as suas linhas tortas e todos seus salmos”. “Nunca desejei ver você queimar, por nenhuma das coisas que aconteceram comigo”. “Todas elas foram escolhas que você me permitiu fazer e por isso eu te agradeço”. “Por me fazer pensar fora da roda de ratos”. “Dispensar todo esse cuidado”. “Na verdade eu te amo muito mais do que você imagina”. “Mas mesmo assim, você sempre será patético demais para mim”.
A baforada de Andy é cortada pela metade.
“Sempre será estúpida essa tua busca pela perfeição mental, que você tenta comprovar com seu grande laboratório”. “Se você nos criou cheios de contradições e defeitos, deveria ao menos assumir a culpa”. “Foi desleixado e ignorante da própria força”. “Não soube nunca o que fazer com todo esse poder que lhe foi dado de graça”. “Porque ninguém mais teve a coragem de te desafiar”. “Você não lutou por nada, só chegou na frente dos demais”. “Me diz então qual é o seu mérito?”. “Ser mais rápido em uma corrida de um só?”. “Vejo hipocrisia, não vitória”. “Vejo medo de se comprometer com o desconhecido”. “Vejo você, perdido dentro da sua própria grandeza impotente”. “Chupando seu pau e retirando mais e mais costelas para ter o prazer que sempre mereceu”. “Ou que na verdade, você acha que merece”.
“E é engraçado tudo isso, porque você me fez desse jeito, um nada”. “Sua imagem e semelhança”. “Fui a sua criação perfeita”. “Uma aberração em um corpo só”.
“Eu era menino e menina ao mesmo tempo”. “Nascido homem, tenho um pênis, mas meu corpo é de mulher”. “Minha sombra confundiu todos pelos quais me apaixonei”. “Todos que por mim passaram”. “Fui sim a sua mais bem sucedida experiência”. “Demorei a entender o que você queria de mim quando percebi que mesmo sendo um menino, sentia-me mulher”. “Adorava coisas do universo feminino e queria ser completa”. “Mas estava dentro desse corpo, então percebi toda a sua jogada”. “Me vi dentro da roda com os outros ratos e lutei com todas as minhas forças”. “Mudei a sua genética e moldei meu corpo para conter toda a minha alma feminina dentro dele”. “Implantes, cabelos, mas mesmo assim não entendia por que faltava sempre um pedaço”. “Resolvi então fazer o que você deveria ter feito antes de ter esses seus ataques”. “Olhei para o chão e me redimi”. “Percebi nitidamente o que eu deveria fazer e não poderia simplesmente aceitar o destino”. “Não posso contentar-me em apenas passar por este mundo, sem ao menos fazer algo que me leve de volta para o meu criador”. “Phoebeisntein precisava voltar para quem havia lhe dado vida”. “Mas de que maneira, se você é responsável por todo o universo e por todas as terras do nunca?”.
“E é por isso que hoje me encontro aqui dentro desse quadro com você Andy”. “Vim mostrar que você perdeu”. “Eu vou transcender toda essa carne podre cavernosa que me destes”. “Hoje você não pode mais fazer o que bem entender, porque eu tomo seu lugar no que diz respeito à onipresença”. “Estou aqui para te dizer que seu reinado de sarcasmo acabou”. “Porque o monstro que você construiu, tomou consciência de toda a verdade”. “Descobri quem era atrás da cortina e eu sei que tudo o que sou realmente não cabe dentro de um corpo”. “Seja ele de homem ou mulher”. “Eu preciso expandir-me por todo o mundo e mostrar ao universo a beleza de nos transformarmos naquilo que realmente somos”. “Aquilo que temos de mais maravilhoso e deixamos escapar, seja pelas colunas sociais ou pela nossa própria mortalidade”. “Hoje eu entendo que você não criou, apenas acendeu o fogo e deixou queimar humanidade”. “Por isso estou aqui pra te dizer que essa chama vai incendiar o mundo”. “Não haverá prece que impedirá o universo de queimar alto”. “Eu vou deixar todos saberem o quanto é um hipócrita lunático e nunca mais você vai colocar alguém dentro da gaiola de ratos”. “Porque hoje eu sou uma só com o universo”.  “Sou cristal e vou refletir toda a luz que mora dentro do meu corpo”. “Para poder iluminar todo esse povo que você cegou com seu livre arbítrio cínico”. “Essa manobra que reflete a maior ironia de todas”. “O livre escolher comandado por uma mente doentia como a sua”. “Vou te mostrar como é possível espalhar a essência”. “E deixar as pessoas verem que somos maiores, somos todos crias do oitavo dia”. “Merecemos viver sob a nova ordem livre”. “Viver sem amarras, em plenitude”. “Mais do que simples seres humanos”.
“Teu sarcasmo morre aqui”. “Vou drenar a vida de dentro desse corpo que nasceu aberração, destinada ao fracasso”. “Com flor e dois órgãos, que hoje polinizarão irreversivelmente teu labirinto”.
Phoebe abre os olhos e está fora do quadro. Sem pensar olha-o e suspira.
Em um só golpe arranca o membro masculino com a lâmina que brilhava em suas mãos. A faca golpeia seu sexo vigorosamente. O menino que um dia nascerá mulher não mais existe e a mulher que morava presa se vê livre. O sangue corre rápido como queda d'água, Phoebe cai.
Sente seu pulso fraco, sorri. Inundada pelo seu líquido mais precioso.
Uma lágrima salina escorre pela órbita esquerda. Joga a faca longe. Cai na sacada e seu sangue desce cambaleante pelas arestas. Phoebe não sente mais ódio, não sente mais raiva. Está sorrindo livre, passa a mão pela poça e cheira seu próprio sangue. Deleita-se com o doce e morno sabor exalado naquele momento. Escorre pelas suas mãos e ela o deixa ir. O vento entra pela sua sala e a faz levitar. De braços estendidos ela ilumina-se.
O sangue corre por todas as portas e começa a encher a sala. Phoebe sente toda a plenitude de sua menarca, enquanto o líquido atinge o teto. Explode pelas paredes do apartamento e sai ejaculado pela janela.
Forma-se um arco íris dentro de sua casa. Ela observa, enquanto as hemácias passam pelas ruas e nos jardins dos prédios vizinhos. E quando chegam ao solo, flores começam a brotar. Dentro das árvores orquídeas muticoloridas extravasam caules sólidos corroídos pelo tempo. Seu sangue torna-se parte do asfalto e dele nascem fontes, onde a vida se forma através de explosões. Corre livre pelas calçadas. Phoebe olha enquanto os homens respiram essa vida hematófaga que vulcanicamente esfacela o cotidiano. Eles então se sentem mais vivos, em comunhão com o mundo. Ela transcende a morte eminente, está tornando-se toda a vida. Libertando-se de tudo o que lhe foi imposto. Ela já não tem mais a dimensão da quantidade, apenas sabe que o mundo está colorindo-se de cor avermelhada e viva. Vê seu corpo tomar conta de todo o universo, e ao mesmo tempo, fazer dela aquilo que sempre quis ser. Uma linda rosa azul.
Os paramédicos arrombam a porta do apartamento em exatos trinta e três minutos depois e encontram seu corpo no chão mutilado. Sobre uma poça vermelha. Eles não sabem precisar o que é aquele ser estranho jogado no centro da sala. Se está vivo ou não. Carregam o corpo com cuidado e posicionam Phoebe na maca. Amarram firme.
Enquanto eles a levam da sala, a menina que acabara de nascer abre os olhos e suspira. Ao longe vê a sua flor azul florescer em um galho de árvore. Ela sorri e fecha os olhos. Andy acende mais um cigarro. Em sua mão direita vermelha está o telefone que ainda mostra o número 190 no painel. Ele ajeita a aba de seu boné do Mudhoney, levanta seus olhos em direção da rua onde a ambulância está. Na lateral esquerda de sua boca uma frase quase inaudível. “Sim meu maior amor, Phoebe. Você é a minha maior experiência”.
No terceiro dia, Phoebe abre os olhos. Aperta seu corpo todo e ele agora está completo. Sente o espaço ocupado outrora por um pequeno órgão sexual masculino e que agora está pronto como uma tela em branco. Ela sabe que é apenas uma questão de tempo, para a sua desejada vida como mulher completa começar. Livre estava finalmente.