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27 de maio de 2024

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trecho

 

A luz rompeu pequenas partículas de poeira residentes tanto nos vítreos condomínios e jardins japoneses, onde era possível ver as marcas dos arados de areia percorrendo o composto um tanto quanto amarelado e pontuado por pontos marrons da outrora tinta, formando desenhos circulares e linhas traduzindo meridianos de energia que terminavam na linha divisória da moldura da janela de ferro e seu vidro antigo,[...]

5 de dezembro de 2014

Seus pés não tocavam o chão há pelo menos dois quarteirões.
Conseguia sentir a força no dorso do pé, toda a vez que realizava a fase de impulsão da marcha, ao mesmo tempo em que o balanço de seus ilíacos colocava suas pernas em propulsão atômica. Todo o peso de seu corpo dividido nas fibras solares, fazendo cada passada erguer uma pequena hérnia. Fibras musculares em febre, a contração de sua perna deixava visível toda a linha que separava os ventres musculares. Tendão pulsava em cada retomada de velocidade, artérias cheias, audível pulso há quilômetros de distância. Uma marcha fúnebre tocada em “drum n' bass”. Respiração urgente a fazia borrar o rosto com uma cor avermelhada e ofegante. Sua capacidade em realizar contrações excêntricas poderosas lhe dava mais poder proprioceptivo, assim voava pelas ruas em um transe de maratona. Os olhos não olhavam nem mais as pessoas solitárias. O cérebro perguntava para onde as pernas estavam indo, ou se elas pertenciam a algo. Ela apenas voava. Mãos escorregavam pelo suor descendente em sua testa. Sentia cada articulação da costela arder carne viva e os meniscos abrandavam cada toque fêmorotibial. Repetitivos e dolorosos. Conseguia sentir toda a contração de seu tendão patelar segurando a revolta poderosa em seu quadríceps. Ofegante não podia parar. Pulmões esfacelando-se a cada expiração sem o menor resquício de pressão negativa. Não mais espaço para dilatação ventricular. Era como se fosse explodir, deixando pedaços de seus poros pelo chão. Marcha ensandecida contínua, ela era supernova consciente de sua destruição. O padrão de aterrissagem em cima de seu osso púbico transverso ao inferno. O corpo latejava, porém ela não podia parar. Não agora nem nunca, não existia espera, apenas a urgência de correr e correr e correr, era uma obrigação de alma ser mais veloz, antes que seu corpo fosse inteiramente coberto pelo desamor. Antes que todo o inferno fosse solto diante de seus olhos.  
Entretanto, o corpo fora dos códigos binários da salvação na tela clama por compaixão fisiológica. Uma pausa em arabescos pacíficos. Chora entre cada passada de desespero. Espera uma canção para que se mantenha aquecido, afinal a fuga é gelada, tem eu ser gelada, longe de todo o que aprendera com o mundo. Obriga-a contorcer seu peito e desatrelar suas mãos de seus braços. Busca nadar por entre o ar em forma de uma parede de titânio. Os pés ardem, olhos já sentem a lava correr por entre as artérias oculares, e ela então derrama um líquido escuro pelas narinas, que ao chegar ao solo sedimenta-se em formas estelares. Ela quer sair de seu próprio corpo. Soltar de seus ossos uma ecdise em pele, marcando sua fuga, um solavanco em seus perseguidores, porém sua pele não rasga, uma oração urra para que pedaços de suas células simplesmente caiam, desapareçam sublimadas pelo ar quente da avenida, na cidade do patriarcado, no lugar onde todas suas feridas foram abertas. Um silêncio rompe a rua por onde ela passa em carreira desabalada, ouve ao longe os cães do Inferno soltarem-se das amarras, sabe bem no fundo de seu ventrículo esquerdo que é preciso continuar respirando, ouvindo os acordes de seus dedos tocando o asfalto, risadas sem coluna espinhal em velocidade terminal sussurram xingamentos dentro e seu ouvido. Os urros que ecoam por entre décadas dentro desse mundo, a pressão dentro de sua casa para que se ajustasse ao papel secundário da mulher de família, o reservatório de esperma paternalista, apenas um peão dentro do jogo de homens mais velhos, intelectuais amigos ou até generais catedráticos. Ela precisava escapar, jamais poderia ser como suas semi semelhantes, doces compassivas que aceitavam sem questionar a personagem costurada em seus corpos pela sociedade, que apenas esperava uma obediência cega aos mandatários e seus egos inflamados e paus à mostra assim que necessário. Os predadores oficiais e suas meretrizes regurgitadoras de conceitos pseudo libertários.

Ela respira mais uma vez. 

Enfim suas mãos rompem a camada grossa de ar que a segura. Pelo canto dos olhos, um homem e seu boné cantarolam Touch Me I'm Sick, ela então sente seus ligamentos rompendo-se fibra por fibra, rasgando a pele que sustenta os ossos. Tendões começam a florescer de sua epiderme encharcada por suor. Fios e mais fios saem de todas as articulações de seu corpo, formando um mosaico de formas e cores em vermelho. Seus braços e pernas agora parecem os de um boneco. Capitaneados por algum artista a suspender sua marionete pelo ar e a faz dançar tropegamente pelo palco sem luz. Ela observa seus tendões estirados, admira a beleza da decomposição de seu antigo corpo, enfim está fugindo de maneira real de tudo o que a cerca. Os poros abertos por onde correm as fibras de colágeno agora expelem uma substância oleosa eu lubrifica os tendões e não os deixam desgastarem-se. Ela observa que, enquanto sobem aos céus, seus músculos ganham mais força, tornam-se concreto e ferro, ela então contorce o ar ao seu redor como se suas mãos fossem dois remos feitos de endoderme e sangue, não existe titereiro até então, seu corpo torna-se outra coisa, tendões são impulsionados pelas nuvens que formam trilhos acima de sua cabeça, ela estará em breve livre, sua nova forma esmagará qualquer resquício de educação, que até aquele momento havia deixado em seu corpo apenas o sórdido paternalismo eterno de uma cidade amoral do interior. De cada vértebra mais duas aberturas laterais formam-se, por elas transpassam mais fibras de colágeno na direção do cinza céu, elas entrelaçam-se desde o final de sua coluna até sua nuca, uma amarração látex fisiológico. Dois fios principais são suspensos, que agora, juntamente com os quatro pares de cada braço e os três em cada perna formavam oito pares tendinosos que a suspendiam por entre o lixo daquela cidade. O infinito representado em seu corpo por fibras oleosamente vermelhas de revolução mecânica. As regras da genética cuspidas como veneno, uma aberração religiosa exorcizando um deus vazio, e que até então, era apenas mais um maldito filho de uma puta misógino. Como todos daquela cidade, sempre achando-se deuses de alguma coisa, da esquerda, da direita, da moral e bons costumes. Mas ela iria transgredir o corpo, era ali, sangrando seu endométrio sagrado, que escaparia dos lobos, suspensa em sagrado bondage.

E naquele segundo apenas ela se perde, é quando vê o homem de boné as gargalhadas.

Começa a correr novamente, a pele em suas costas estraçalhada pelos ligamentos da coluna. Suspensos a colocavam acima do nível da rua. Como em um pesadelo, agora parecia correr parada, seus tendões violentamente levam-na correr cada vez mais rápido, sente o ligamento em sua nuca expandir seu crânio. Pensava que se ao menos pudesse parar a inércia de voar em gravidade zero poderia ser mais rápida. Sua única hipótese era escapar daquilo, pois passar por tudo mais uma vez não era uma opção.

Seu corpo agora formara bíceps alados com pontas afiadas de cera. Pulsando em cada sopro de ar fervente, os pés ardiam, mãos já geladas pela chuva torrencial de sua testa começavam a latejar. Não havia mais miosina suficiente em seu corpo. Fáscia passeando pelo travamento, e mesmo assim, a suspensão dos seus tendões ficava cada vez mais forte. Ela deixava para trás um rastro de ódio, água e flores.
Por minutos incontáveis ela permaneceu nesse estado de latência deambulatória, não se importando com nada ao seu redor. Correndo, sentindo o pulsar do sangue como labareda seminal de uma menarca. Esfacelando-se até o abismo do fim da rua embaixo daquela ponte, próxima à praça da cidade. Exatamente lá onde sentiu os tendões arrancados de suas costas pelo adestrador de marionetes. Expondo toda a musculatura paravertebral. As asa aladas em seus braços derretem-se, os ligamentos nas suas pernas e braços secam, despencam ao chão lavando-o com uma coloração arroxeada, são hematomas que ao tocarem o concreto tornam-se escaras, o cimento faz do sangue uma necrose eterna e suas ressonâncias ajudam a deixar ferias abertas no corpo dela. Então ela se vê imóvel, sangrando e tremendo. Pavorosamente calada, esperando a tormenta que a seguia passar. Rezando muito baixo para que nenhum dos cenobitas a encontrassem. Olhava em seu corpo e sentia todas as marcas dos tendões recolhidos e enrolados ao redor de sua boca, para que não chorasse. Silêncio em hipnose de salvação.
Por um momento ela sentiu-se só, nada além de seu corpo cansado debatia-se contra o vento. Nada mais havia de ruídos na rua, era apenas ela e todas as cores que exalavam de seu corpo destruído pela fuga. Olha por segundos um horizonte inexistente, sente o bafo quente deles por perto, quer correr de novo, mas seu corpo não obedece. São segundos inimagináveis, sabe que precisa sair de lá, porém, está presa por um estado de inércia estática. Os ligamentos sem lugar certo, uma marionete sem função, e mesmo assim resolve sair.
Abre os olhos. Acorda do sonho corredor pela pancada forte de um cabo de vassoura que estilhaça suas costas.

 - Onde você pensa que vai? A voz ecoa pelos ouvidos atordoados, sente apenas as mãos puxarem a manga de sua camiseta dos Intruders. Presa, sente seu braço torcido por uma força coletiva. Uma sensação de alívio nervoso chega por entre seus olhos. Não porque tudo estava desabando, mas porque enfim não sentiria mais as dores causadas pelo seu pai. Currada em espírito pelo aglomerado de meninas e meninos que lhe machucariam, qualquer coisa era melhor do que sentir as dores causadas por ele. A fila vestia-se quase como um uníssono. Jeans e camisetas refletindo as escolhas de vida de cada um. Bonecas, bailarinas e pequenos cachorros televisivos ilustravam suas camisetas. As calças minuciosamente surradas por precisões da moda de época mostravam que assistiam todos os seriados de televisão modais. Não existia diferença de cor e raça quando o assunto era assombrar. Apenas uma força destruidora de almas que escondidas jamais poderiam lutar contra a força.
- Como é que você corre assim? Replica novamente um de seus carrascos. Ela não sabe o que responder. Está estática. Sente apenas a elevação de seus tendões, mas dessa vez a suspensão não lhe salvaria.
- Você corre melhor do que eu, mas também é de se imaginar.
- Não é verdade?
O interrogatório continua. Palavrões ecoam por entre os montes de areia que escondiam ferramentas, nas construções da rua. Árvores olhavam pelos retrovisores de folhas toda a cena que nascia por entre as agressões verbais. Letras formadoras de insultos jamais imaginados habitantes em boca cercadas por cremes dentais caros. Apenas a luz em piscadela intermitente acompanhava as palavras, cada vez mais ferozes.
Entretanto as hienas queriam mais. Precisavam descontar toda a raiva da fuga em sua pele. Alguns meninos acotovelavam-se nas sacadas para assistir à crucificação pública que aconteceria em breve. Pedaços de madeira das construções eram feitos pregos, cravando repressão pelas coxas da quase menina. Por instantes ela percebe que sua vida pode acabar ali mesmo e não se revolta. Apenas aceita com devoção sua derrota sobre a vida. Um soco queima o chão e atravessa suas narinas fazendo com que engula as primeiras hemácias rodeando as bordas. O estalido dos ossos é invisível e repleto de ódio. Não há fuga, apenas um enorme puxão de suas tranças, seguido de mais um ou dois socos desavisados.
- Me responde uma coisa, sua coisa...
- Como você se sente sendo esse monstro que você é ?
A pergunta ecoa mais um cabo de vassoura que explode nas costas dela. Ela não cai, aceita a pancada, sofre com cada nervo explodindo por entre a dor nos músculos posteriores.
- Me responde ?
- Me responde seu aborto mal acabado.
- Me responde como é possível seu pai ter gozado dentro da sua mãe e como resultado essa merda ter saído dela.
A cada pergunta, uma nova agressão assolava suas costas. Ela quase se ajoelha, mas resiste. Não pode desistir agora. Onde estará o homem de boné?
- Você não vai me dizer nada?
- Então você vai apanhar mais sua vaca, ou eu devo dizer seu monstro? Explode a repressão machista da família no peito de seu agressor que lhe desfere outro soco. Cuspindo em sua cara, a vassoura ressoa por entre as orações das carolas que dentro de suas casas escondem-se para não ouvir o terror na voz dela.
Seguidos pontapés. Ela sente seu estômago por entre a faringe. O gosto de sangue é tão fresco quanto névoa da manhã. Ela apenas deixa seu corpo ir. Quer morrer. E quem sabe, não é essa sua hora. A risada do agressor trava o ar ao redor de todos. Um soco forte na altura do olho faz com que ela se curve, encostando seu rosto próximo à pélvis do algoz.
- É exatamente aí que você tem que ficar, sua puta, perto do lugar onde o meu prazer interessa.
Era como deitar a cabeça dentro do leão, mas ela apenas ouvia o silêncio, suas mãos trêmulas não conseguem estancar o sangue, deixa-o ir então. A morte seria alento. Ela sente sua foice acariciar seus cabelos, está pronta. Mesmo não vivido mais do que seus quinze anos. Quer morrer desesperadamente pois o sangue não estanca e a dor não cabe mais em um corpo só. E quando mais um pedaço daquela mão vai em direção ao corpo dela, algo acontece. Uma labareda corre por entre os dentes dela, e os fios formados por seus tendões esticam uma vez mais, colocando-a em pé. Empunha suas mãos como marretas. A menina cria urra de dor. Sente sua pele despregar dos ossos e suas mãos já não são mais suas. São presas, vítimas de uma força maior que ela, maior que qualquer tentativa de ataque inerte e covarde. As mãos alcançam a solta pá da construção ao lado do picadeiro. O ferro incrustado com concreto de outrora forma uma carapaça de tartaruga no instrumento de construção. A simetria dos tendões elevados faz com que fique em posição armada. O zunido do ferro corta o ar e explode no rosto do agressor que cai semi-inconsciente.  Os olhos do predador e da presa encontram-se. A pupila dela empala-o e a pá descreve outra linha giratória e quebra as costelas do monstro da moda. Nesse instante, forma-se um clarão de vácuo. Um trovão reside diretamente dentro das quatro órbitas. Um frio ártico percorre a espinha e sua mão lentamente se despe da forma fechada. Um medo corta a violência, ela o fez sentir tudo havia de mais desesperador dentro dela. Estampado em gotas de rancor que eram desferidas sem perdão. O sangue ainda correndo pelo seu rosto mesmo depois da vingança ,abaixa sua calça e esfrega violentamente seus genitais na cara do agressor, agora inerte. A horda de defensores estarrecidos com a reviravolta da cena, não conseguem nada além da verborragia.
- Quem você pensa que é para bater assim em nele, nosso amigo, você permitiu que fôssemos assim com você, no momento em que foi sincera consigo mesma e aceitou tudo o que aconteceu calada.   
Ela sangra cinza, amalgamando sua alma de encontro ao asfalto.
Não existe mais dor, apenas o silêncio de um corpo semimorto. Deixado para trás pelo mestre das marionetes, à própria sorte. O choro não está lá, as vozes não estão lá. O homem de boné muito menos. Apenas uma pausa, porque ela já sabia que o martírio apenas começara. Entendia desde sempre o quanto ruim o mundo poderia ser, mas foi essa percepção que a salvou e não apenas essa ponte. O sangue ainda é fresco e com sabor de novo, mesmo passado tanto tempo naquele dia de outubro, onde descobriu que por mais ódio e dor que sentisse jamais quebraria. Quando sentiu pela primeira vez como é ter sua carne cortada pela audácia malvada de alguém. Todos os detalhes permaneceriam vivos dentro dela. A voz esganiçada lhe dizendo todas as palavras pesadas em seus ouvidos. Os gestos que a faziam lembrar que ela não tinha um reflexo, apenas a silhueta de um mamilo em sua boca para alimentá-la. Os toques exageradamente bruscos na direção de seu rosto. O corte por entre suas sobrancelha e pálpebra, fazendo-a derramar aquilo que fazia dela alguma coisa em que se apoiar. O DNA, sua marca espalhando-se por entre seu rosto e pingando no chão, desesperado em ser contido, coagulando toda a insensatez. Deixando que todas as hemácias levassem aquilo que era mais importante embora.
O discurso de defesa da horda transforma-se em linchamento, o mesmo que ela inadvertidamente em defesa própria fez com seu algoz, desse modo a vingança seria mais forte ainda, e foi paga da maneira mais violenta possível, com socos e um estilete comprado na livraria da cidade, desfigurando sua face e perfurando seu sexo. Ela não gritou, não lutou. Não havia porque lutar, muito menos ninguém que ajudasse. Apenas uma ponte, testemunha ocular de uma vida que se esvaziava por entre a saliva grossa da horda em seu rosto e o vermelho que teimava em não parar. Não havia alarmes e não havia surpresas. As pancadas eram as mesmas, as pessoas eram as mesmas. Tudo era tão parecido em sua vida, que ela sabia - aquele líquido a escorrer jamais deixaria de cair. Entretanto não podia correr, apenas poderia tentar sobreviver mais um dia. Assim era desde seu nascimento, não poderia ser diferente agora. Ela se lembra de ver todos os seguidores indo embora cuspindo pelo chão. Em especial um último que ao sair fez com que sua saliva se misturasse ao seu sangue no chão, deixando claro que apenas a mistura do escarro a faria igual. Deixada aos urubus e hienas, assim cheia de cortes, tudo tornava-se mais claro. Sangue e catarro trouxeram um entendimento maior do que a morte. Ela então se abaixa por debaixo dos restos de sua alma, suas mãos tornam-se pequenas pás. Começa recolher a mistura de saliva, escárnio e sangue pelo chão. A poça disforme começa a tornar-se um médio quadrilátero, algo levemente disforme, sobra de uma tela estampada pelo concreto, suas mãos já não mais são pás, tornam-se pincéis, o amontoado de secreções move-se aleatoriamente, pseudópodes revoltos dançam por entre as arestas gastas do calçamento, olham ao redor e certificam-se de que não existe mais ninguém, apenas ela e seus restos espalhados. Uma tela exata nasce então. Através do ar posiciona a canvas próxima de suas pernas, ela então começa a desenhar traços e mais traços vermelhos e brancos, seus dedos exalam as cores e as moldam, lentamente formas iniciam um ritual que poderá durar por toda sua vida, mas apenas naquele momento elas serão sua salvação. As feridas em seu rosto e corpo desenvolvem pequenos orifícios parecidos com bocas, línguas mínimas aparecem estancando o massivo sangrar e apenas deixam pequenos rastros de secreção saírem. Em cada gota um grito seco estala, no chão seco as cores tornam-se vivas ao mesmo tempo que fagocitam cada pedaço de sujeira a atrapalhar o desenho feito pelas mãos pincéis. Leves movimentos levam as cores para onde elas devem estar, deixando os tons mais nítidos, as gravuras de uma rupestre alma perdida dentro da evolução macho misógina onde fora criada. Tudo é uma coisa só, suas mãos, o sangue e o desenho, nada mais importa. 
Apertando cada vez mais os cortes, as dores sentidas eram impossíveis, cada vez maiores, ainda assim inicia uma dança com as mãos. Todo o sangramento que vinha dela lhe dava vida. Olhando para a poça ainda disforme, procura um melhor ângulo, uma melhor sombra e o melhor traço. Assim se fez. O quadro era exatamente o que queria ser, sua projeção libertária. Todas as rosas que ela podia imaginar cobrindo seu corpo machucado, as nuvens em que ela se deitaria depois de sentir todo seu líquido esvair. Os sorrisos sentidos secretamente embaixo da ponte, o amor que sempre sonhou, porém em toda sua vida estripado pelo destino fora. Tudo desenhado pelos líquidos que saiam de dentro dela. Sabia que essa era a única maneira de escapar. Sentia toda a aflição de sangrar, mas estancaria todas as feridas com os desenhos que ela fez no chão. Peixes estranhos em arpégio de cores derivadas em vermelho. Eles se movimentavam e lhe sorriam, em traços infindáveis. Tudo na mais perfeita ordem. Ela desenhou o mundo, seu mundo. Mesmo com um quase desfalecer sabia que era preciso fazer daquele corte vida. Lembrou quando lhe disseram que tudo daria certo se continuasse a acreditar, se mantivesse sua fé inabalável, o mesmo estupro mental consensual de sempre, mas dessa vez não. As mentes que mentiam em castas jamais saberiam de seu desenho, jamais entenderiam os tendões. Assim, ela percebeu algo que lhe escapou por quase toda uma vida, a solidão que se vive só é a mais dolorida, porém também é a mais linda.


24 de abril de 2014

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Haikai

O preço do amor é poesia.
Águas claras,
o rio plácido a refletir orquídeas cristalinas.

23 de abril de 2014

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Quando enfim o pus virar saliva.

Parecia o contorno,
do corpo,
na vestimenta, não era.

A marca da pele
– escondida,
forma atrela.

Meu pau precipita,
em seus lábios
– espera.

Quando enfim
– o pus virou saliva,
bálsamo era.

Minha língua sem mãos [atadas,
lasciva-te os bicos dos seios
– eletrosfera.

De quatro clamando
– o penetrar perpétuo,
lua angarela.

Uma angra de gravezas
– espuma o ódio,
falta sincera.

As gramíneas andam,
escorrem tua chuva
– sentir os fios, atmosfera.

Apenas deitar em teu vale,
a pena valeria
– tua boca, o dissabor cancela.

17 de abril de 2014

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Os restos da sarjeta tatuados no rosto

É o desatino que mata,
as canções em arestas secas,
o desespero que aos poucos consome,
em pequenos pedaços a alma.

As faringes involuntárias aleatoriamente falando solidão,
a decrepitude da epiderme nas bordas dos cotovelos,
as dores articulares que apenas passam com o álcool,
os fins desses tempos acelerados, queimando distorções ideológicas.

Essa raiva itinerante, mambembe e vaginal,
que me rasga o cu à procura de acalento,
distorce todas as visões possíveis,
transcende a necessidade do manter a sanidade,
em uma caixa preta onde sinais são soprados aos solavancos,
hélices, halabastros, halucinógenos, haachinianos,
habemus confitentem  reum.

Sentir cada pedaço dos restos emudecerem,
enquanto as sobras do que se pode tentar ser desabam.

Metástases de uma alma em cinza,
rameiras emoções de homicídio assistido,
são as teclas que movem o corpo morto,
as esperas que matam em cada vômito,
a não simpatia enquanto pendura-se no pescoço a corda,
no décimo primeiro andar,
correndo pelo encanamento aleatoriamente.

Enquanto a vida assopra o deus morto pela janela,
ventanas, vadias, vassalas, ventania tardia atordoa,
o arribar desse infinito número pi de eterna tristeza,
por quarenta e oito horas sem interrupção,
onde o alento do copo,
estremece convicções,
sobras,
pesadas das calhas recheadas de rancor,
o ódio que consome o calendário,
em cada pessoa sentada à sua frente,
na cadeira. A vontade,
o martelo desejando acertar a têmpora,
deixar essa merda de corpo no chão,
essa mediocridade para trás,
as mazelas do interior que ao estuprar as bordas dos orifícios,
jamais conseguem desamarrar-se,
como se tivessem garras e ventanas,
em formato de amebas unicelulares,
cânceres recobertos de verão.

O desespero do minutos incontáveis,
remoendo manchetes em medo,
são apenas estiletes de paranoia,
recortando moscas nos copos outrora vazios,
dos restos da sarjeta tatuados no rosto.

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Quarenta e oito horas...

Restam quarenta e oito horas,
apreensão aos poucos rarefeita.

Vai desfazendo em quarenta e oito horas,
os efeitos de meus ingeridos narcóticos.

Esperamos.

São umidades matinais, lágrimas com café,
acalento quando se dorme, e deus,
o maldito,
sorri desapercebido.

16 de abril de 2014

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Microconto insône matinal

Ao nascer da madrugada,
por entre a alquimia de apreensão,
raiva e medo,
percebe mais ligações entre espécies diferentes,
elo intrínseco.

Imagina,
se por um acaso mal explicado,
fosse uma criança a presença além alma que estivesse adoecida,
ao invés do mamífero em alva cor.

Senta-se acadeirando-se no sofá,
dormentes genos formam fogueiras,
ardem,
pensa novamente na criança,
a esquece com a mesma força de criação.

Ao lado o olho corre,
o cão suspira,
buda espera o cair da gasolina e o acender do fósforo,
chamas consumindo o mártir que dorme sem saber.

15 de abril de 2014

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Gur’3JAR

Trouxe então a tarde uma desavença aos trancos, 
a frenagem satisfeita, as pernas desabando, 
o homem perdendo [se], os isolamentos desdobrando [se]. 

Por consumir toda a vida,
o trilho emite contrações. Contorce,
sem ao menos sentir-se são,
espera o fim no bunker. Concreto,
sem coerência, onde não existem –
nem ao menos veias e almas.

A corroer toda a vida,
o vagão trina silvos violentos. Consome,
sem ao menos sentir-se dono,
enlace louco de lucidez. Gur’3JAR,
sem impaciência, onde sim existe –
saída antes do fim.

Por explodir todo o medo,
a velocidade não espera. Concerta,
sem ao menos sentir-se entediada,
arestas em imundo mundo. Sangue anil,
percorre passagens pelas catracas –
escorre nas janelas poluídas.

A desdobrar todo egoísmo,
o farol não mais alumia. Cabriola,
sem ao menos pestanejar [espera,
que a luz vagueie pelas vistas. Infinita,
resista aos desmandos humanos –
desfaça o pensar no só.

A incoerência desse mundo em ferro é simbologia apenas, 
os olhos sem alimento, o corpo padecendo, 
a inexplicável incoerência [de], as mazelas no desamor cotidiano [de].

4 de abril de 2014

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Sobre ângulos...

Olhando o teto,
não entenderia uma só palavra,
com óbvia repetição,
poderia, porém não.

Ao chão, poderia direcionar meu olhar
ao chão, mas não o fiz.

Ouvi então mais uma vez,
por um triz, quase escapei da voz.

Poderia, mas não desta feita, como sempre,
sempre minha saída.

Fugi, atrás do plausível acalento no desprezo, 
entretanto,
a insistência era atroz.

Por mais uma vez,
estimulando me ceder,
a voz a indagar se por acaso,
atei-me detalhes do coração,
por mais uma vez.

Por fim os abro e olho para baixo,
com olhos mecânicos,
alcanço então o refletir vermelho em onda,
de um coração com aproximadamente,
dois centímetros de raio assimétrico.

Postado logo acima,
semi reto nas abóbodas.

Todas as coisas,
esperma, bosta,
pó e saliva,
em uma alma vazia,
que assim permanecia.

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De Ontem Amaram

Aperta, espera então –
o ar chegar.

Despertar tremores,
o além,
sonhar amaram.

Sonhar sem vazio,
a boca, as mãos sem frio,
tatear. Infinito,

sentir o ar chegar.

Aos poucos, soluçando uma passagem,
devagar. O corpo translado do lado –
da alma,
a dançar.

Estirada, saciada aos sorrisos, por dias –
e horas. [A alma sente o ar.

A carne aperta, vandaliza.
O melaço,
a caiar se espalha.

O corpo espreme-se,
se contorce.
Espera faltar o chão.

E falta então, some assim,
sem mais aviso,
com precisão.

Em par, em laço,
entrelaço a salivar,
- desfalecer quando -,
o quase o fim.

Espera a vida ,
então diluir o ar.

Vai-se lá o vazio,
esperando que lhe acenem,
calmo. Percebendo seu destino,
a pesar.

Veja lá que assim deve ser o infinito,
sem pressa, involuntário,
de trajetória par.

Peca então pele,
expõe as artérias arestas. Deixa o ar,
entrelaçar amaram em mim.

28 de março de 2014

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Sobre os Ramones...

Um lugar entre as existências,
desencontradas consciências, coisas que encerram apenas um-
auto significado-
formando-se tal à imagem
apenas de si mesmo -
e para si mesmo-. Desespero
que a consciência humana provavelmente não entendeu,
ou pelo menos,
sessenta e cinco
por cento dos mamíferos (e)masculinos,

Arrisco dizer,
aos solavancos (por ainda crer em alguma coisa,
dentro dessa huxleyniana esfera),
"sem as aparas que lhe permitiriam diminuir a velocidade,
assim observando suas translações inóspitas",
quartetos distintos,
com uma mesma deambulação em revolta.

Zeppelin em Communication Breakdown, anemofiliza. O impuro ar
com a poeira que sobe dos solados nos sapatos,
quando estes arremessam lava no calçamento-
por seu incontrolado debater inconsciente-,
raiz arrancada do solo "com a simplicidade dos ares que antecipam a explosão",
pelos Ramones.

Claves usadas para recobrir corpos de movimento,
como as canções nos anos cinquenta,
labrum incontrolável,
gosto tamanho da banda.

Picotadas por três minutos,
com precisão do deus azul de partículas atômicas,
transformado em algo muto mais lendário.

Existe a banda espetacular, e,
bandas que mudam a trajetória da história,
as jaquetas e calças surradas (do álbum gravado em apenas duas semanas,
por seis mil dólares) dos Ramones,
transitam pela mesma poeira do zepelim,
porém em rota de evolução.


 

24 de março de 2014

18 de março de 2014

Onze horas antes pensava-se
apenas, pensava-se
na espera,
não se tinha noção,
do montante de tempo,
na amargura e
no sofrimento,
não existia nada,
nunca houve nada,
apenas a espera.

Quando se sai,
se volta e vai,
estoicos tempos de
eterno retorno.

A espera é mórbida,
os segundos,
sujos que já não voltam,
o dia escorre,
a morte assombra.

O sol se foi como desconhecido,
a noite como se
anônima fosse,
o fim do tempo desaparece,
as salas são unicolores,
os sorrisos -
de desespero plástico são.

Espera-se mais da paciência,
o fim espirra ao seu lado,
senta-se na calçada,
lhe dá a mão.

Os minutos não mais relativos,
apenas afeterés cartesianos,
daquilo  que não foi vivido,
apenas o choro, a dor e o desespero.

14 de março de 2014

Para quem tanta pressa?
Se quando desperta,
não sabe onde vai.

Para quem tanta pressa?
Se nesta floresta,
o concreto se esvai.

Nas veias,
artérias,
no meio fio
onde me deito.

O ódio que não se transforma
mais em raiva,
apenas regurgitado internamente
fica, como pó do dia
seguinte.

O gim colado
em seu lobo
contemporiza máculas, então
a lucidez não existe,
não importa.

O grito oco persiste,
as convicções esvaem-se,
aspirador passado,
cigarro fumado,
vodka seca em textos
mergulhados.

Confins do avesso oco,
martírio em respirar, passagens
inóspitas,
do Universo galopando
nos restos da sarjeta.

Polinice que se cala,
ao fim do dia,
onde as cinzas de parentes, nada
mais são,
nem ao menos uma lembrança,
nada mais são do que os restos
de um cidade,
mórbida, morta e
sem cura.

O seco som do inverso, a[teia]
intrínseca do desespero.

Leve exibicionismo da dor,
por entre as paredes
que refletem hélices,
balões de hélio, esfinges e seus
milhares de andares,
transportam restos de corpos,
elevam-se mínimos,
aflitos,
atingidos por raios,
no meio do calçamento azulado.

Plantam restos de pulmões
deixados para trás na vida plena.

O único pelo,
nascido incauto no saco
inelástico,
a gravidade,
que esmurra suas sobras
abaixo do trópico no meio fio,
o azedume da poluição,
a invadir suas narinas,
alabastro de cocaína eterna,
as doses inexatas do apagar das luzes,
homeopaticamente,
como a holística e seu enorme pau,
a te foder incessantemente rabo adentro.

Os braços marcados de morte,
a falha na aposta do existir,
insensatez de uma ilusória vontade
em persistir, [a única malha,
uma única manta de sabedoria, ainda
reside dentro do sujo vidro
arredondado,
onde se deposita a alma,
a cada tragada embebida
em uísque falsificado,
vendido em plástico.
 







8 de março de 2014

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Negação

Existe apenas a negação, rosa sem casa,
sem entrada e portão, apenas o não atrás do não,
algo que se deglute vagarosamente, como rancor ou ódio,
como alguma coisa que entala na garganta e cresce como câncer,
uma artimanha das mais torpes feita a cada dia pela vida,
pois o concreto é apenas a negação, nada mais,
nem o fundo do copo, muito menos o cigarro queimando as arestas de seus dedos.

Nem ao menos a dignidade do aviso, apenas um soco seco,
uma lata repleta de pedras acertando sua cabeça sem sinal,
sem marasmo, sem alerta, apenas pedras octaedras,
mundanas ao mesmo tempo repletas de sanidade, 
a única coisa que seu peito em aparente explodir em dor,
jamais conseguirá atingir.

Apenas o não, o nunca, a desqualificação do exercer,
as notas bestificadas em avaliações subjetivas,
o respirar serôdio de uma vida que começou tarde,
enlaçada por devaneios eternos de mentiras
a cobrar seu preço na velhice,
o estômago que padece de uma melhor colocação, a alma sem jeito,
o manejo irrestrito dos poluentes escorrendo na pele,
enquanto as tentativas em se tornar algo melhor do que apenas um endoesqueleto,
tornam-se cada vez mais inertes.

O caminhar é pesado, o caminho lamacento,
as entradas e suas espessuras de concreto lacradas,
as pessoas a sorrir sabendo que a desgraça se aproxima, 
as mãos que lhe empurram na direção do abismo,
as anedotas contadas pela morte no final do balcão.

Não é uma das faixas desse eterno lado bê,
acordes suásticos lambendo tua boca, acariciando teu querer,
o álcool dizimando esperanças,
o não arrastando-se pelas arestas,
consumindo os restos do corpo já decapitado,
cuspindo nos vértices do coração,
exumando os restos carnais do querer,
são diretos e ganchos em particípio passado do acertar sem descanso,
são os mínimos choques elétricos na uretra,
a vida vagarosamente retirando sua pele e deixando seus restos nus,
tocados pelo vento repleto de areia e cimento,
dissecando seus músculos,
gelatinosas miosinas,
actinas a resplandecer o podre das ruínas,
o não sem rosas e casa,
os restos que fecham feridas,
as luzes que aos poucos tornam-se cinzas,
são as mesmas do caleidoscópio.

E assim no entretanto do passar dos dias,
onde as linhas brancas unem-se no paralelo infinito do vidro ocular,
os passos são dados na direção desse mesmo não,
o não passado pelo cordão umbilical,
o não que se ganha sem querer,
sem saber que existe a negação,
os passos sempre na direção do não que nos espera como amante saudosa,
como mãe zelosa que nos assassina,
o não,
sempre a contar com nosso caminhar em sua direção,
é também não, o não temer o não,
lhe devolver o direto de esquerda bem no meio dos dentes,
e com sua boca sangrando,
sorrir ao não como um sociopata, arregalar os olhos, gritar e correr em sua direção,
possuído com todos os demônios moradores e vizinhos,
avançar sem piedade no terreno cartesiano,
bater, bater, bater, bater, bater, bater e bater,
até o não sem rosa e sem casa cair,
até sentir a morte dele aos poucos,
pela respiração ofegante,
depois de tanto apanhar,
e mesmo com toda essa fúria disseminada,
bater ainda mais.

A vida nada mais é do que um ringue,
um lugar onde cavalos de força são reis,
nuances de delicadeza são pontos de apoio,
as luvas da negação penetram,
acertam teu rosto deformando-o,
o baluarte da esquiva se faz tão necessário quanto a respiração certa do ripostar,
acertar a negação com ódio e luvas de câncer,
é o que resta, sem casa e sem rosas.

19 de fevereiro de 2014

Pois o espaço entre as pernas em estática permanecera, 
não existia movimento com elevações agonizantes,
daquelas que sempre dão vista em pessoas mais velhas com aquela estrutura,
ele porém se manteve tão estático, que,
em qualquer momento poderia acontecer de soltar pelas faringes badaladas,
como um relógio de eficaz precisão.

Residia em sua cabeça uma curvatura anatomicamente precisa,
formada na sua grande maioria pelos rebordos de uma francesa boina, 
escavando tentáculos anastomoses,
cercando o córtex,
deixando para trás qualquer tentativa de lembrança,
algum desgaste mórbido de memória,
que Adolfo possa ter.

Dona de sua cabeça,
com a falta de piedade que sempre apresentam em seus dentes,
aqueles que oprimem,
a boina repousava dona de si mesma e do homem,
nas curvas exatas como uma equação quântica de biofísica atômica, 
entretanto ele não parecia importar-se,
entretido estava envolto nos enlaces de páginas,
onde aviões e siglas se compadeciam de seu enclausurar forçado capilar,
folheando como se suas mãos fossem ávidas turbinas, 
como se seus olhos fossem trovoadas em tormentas,
retinas de cúmulos nimbos,
ninfas mecânicas com asas e rotores,
queimadores de mentirosos e seus caminhos de cinzas,
“she’ll came back as fire to burn all the liars, leaving a blanket of ashes on the ground”.

Mas Adolfo não se importa,
quer apenas continuar sua veloz antecipação,
do que está por vir nas próximas onze páginas,
pensando em como os manches devem ser macios,
a cabine pressurizada quente e aconchegante,
um útero de segurança que a qualquer momento pode cair,
as mãos rápidas,
os olhos tenebrosos em não acompanhar seus dedos,
a matemática inexata do folhear,
para trás e para frente,
para frente e para trás,
para o meio e para frente,
para frente e para o meio, e,
para trás de novo.

Adolfo enfim abre as ranhuras,
os panfletos onde pode se ver, Dubai,
Aerolineas Argentinas, Israel, África do Sul, Egito, Grécia, Lufthansa,
elefantes, safári, espingardas, homens em couro areia,
e não existe sequer tremor em suas mãos,
está ele armando sua redenção em forma de viagem,
provará aos que sempre o viram como apenas um homem de meias compridas, finas
e de sapatos pretos ligeiramente gastos em sua porção valga,
aquilo tudo que em sua mente sempre foi uma tônica acelerada,
ele poderia voar no exato momento em que quisesse,
na exata hora em que seus pensamentos exacerbados pelo aço do metrô,
lhe dessem o necessário impulso ao que se chama de voo livre,
lá iria Adolfo,
aos céus sem parada obrigatória,
sem estação de repouso,
sem pouso de emergência,
apenas ele e sua redenção de asas em direção à Ásia,
o rei do ar,
o monarca de todas as aves, e,
enquanto seus panfletos das companhias de viagens,
suas brochuras com aviões e pontos turísticos,
estivessem por dentro de cada centímetro de dna exalado em sua pele solta, 
ele chamais seria um idiota.
“But I’m having fun, I think I’m dumb, maybe just happy”.

Mas Adolfo sabe que possivelmente,
ele esquecerá tudo isso no momento em que descer do trem,
suas lembranças soarão apenas como agudas oitavas abaixo,
sem ressonância dentro de seu córtex,
terá dificuldade de lembrar-se onde está,
como chegou e quem é,
menos aflito por perceber que seus passos foram apagados por ele mesmo,
mais por não saber como recuperar a trilha de sua memória,
quando então se dá conta disso tudo,
não mais abre fecha abre fecha folheia passeia pelas folhas,
arruma exatamente usando medidas de tamanho,
cor e espessura,
suas rasuras de vida com páginas, 
coloca-as de maneira educada e gentil dentro de sua mala preta,
recoberta de zíperes, fechos e alças desesperadas,
onde cada objeto tem sua posição confortável e solitária,
como corpos em coma acordados para o banho de sol,
sem nenhuma testemunha que lhes diga,
o quanto importantes elas são.

Assim gélidas em seus caixões,
Adolfo coloca todo seu material na maleta,
recorre ao seu suco alaranjado de fitas VHS,
armazenado em uma pequena garrafa de plástico,
com seu rótulo alcaguete,
revelando que o suco laranja não é definitivamente parente próximo, 
afinal de contas sua etiqueta é roxa,
Adolfo toma-o sem pressa dessa vez,
o fecha,
espera,
acorrenta as últimas tentativas de entender onde está realmente,
pede clemência com o olhar que agora contém um óculos caçador escuros,
e levanta-se na Estação Carandiru.

As portas abrem-se,
ele sai,
retoma seu raciocínio ou o que restou dele,
repensa em todas as formas de voar,
toma distância,
arremete uma corrida sem freios,
rápida como suas mãos em seus folhetos de viagens,
voa
voa voa
voa voa voa
voa voa voa voa
voa voa,
voa...

Ganha sua redenção da Estação Carandiru, e,
se lembra por alguns momentos,
durante suas crises de esquecimento,
o quanto sente falta de sentir-se triste,
menos porque é dono de uma ímpar depressão,
mais porque realmente não consegue lembrar-se.

Porém Adolfo sempre terá os panfletos e a lembrança da tristeza.
“I miss the confort in being sad”.

( Dumb e Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle – Nirvana)

14 de fevereiro de 2014

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Atraso na plataforma de embarque

Eu que aportei antes
do desabar o céu

Pré lamento das nuvens algodão
embebidas em pus

Perdi a cachaça
à beira do sujo balcão

O cuspe em raio
sedando o milho no lixo

O resto do dia rastilho
cobrindo feridas de saliva
                                      [atraso na plataforma de embarque

13 de fevereiro de 2014

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Pretérito

 Todo disfarce é pretérito imperfeito
como o arroz enroscava no hashi e nos solavancos da vodka
a lembrança trancada no banheiro
o nariz escorrendo restos de açúcar cristal.

A emissão de pseudópodes na direção do fígado
no amparo a voz rouca da cocaína
o vaso trêmulo como minha glande
no momento onde a urina precipita.

As concretas imagens dos velhos contorcendo-se
ao tentar caminharem no pós-moderno calçamento
em cada aglomerado analógico do medo residente no rosto
nascerão incertezas no futuro do presente.

Em cada par de pulmão imundo por diárias toxinas
em cada lábio rasgado pela ansiedade sanitária
em cada desaparecimento do corpo humano no cotidiano
em cada não ser eu no momento em que me reconheço.

A fumaça do cigarro atravessando paredes
envolvendo uma bolsa escrotal de cola
máscara de plástico sem manifesto
em sujas arquibancadas entre Washington e Bahia.

Renascer assim apenas ao existir o que se lembra
arrabaldes de uma terra seca e vermelha que doíam a cada lembrança
um otimismo cínico disperso no vidro do trem refletia perfeita simetria
entre o friso da porta e as amarelas alavancas de acordar no ponto.

O medo então torna-se mágoa, a mágoa torna-se ódio
os trens percorrem milhas através de milhas por entre milhas
o copo sempre cheio, o cheiro ácido de água ardente em uma praia qualquer
mesclado em nicotina e conhaque, erva e crack às nove da manhã
o mais puro querer no tempo do não querer.

A vida vadia, vazia, estridente e dormente nos vagões em direção à cidade de Marília
o resgate da Maria Mole descia como navalha
arrebentando os restos de uma suposta pureza
envolvida pela fumaça da maconha no último vagão.

Mas o corpo padece no futuro imperfeito
onde a morte espera o que teremos
dívidas levadas não serão depósitos apenas débitos e mais débitos com juros
nada que possa se transformar em ouro vem do que foi
muito menos em força transmuta a ficção alucinógena do que se viveu.

Resta a catraca à frente
a vida que ressurge em outras cores
resta a soma do virá
enfim um alento
ao mórbido dissabor do passado.

12 de fevereiro de 2014

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Estranheza...

Eles causavam estranheza nos arredores, como não poderia deixar de ser,
dentro desse aquário metalizado com ar pela metade condicionado,
pelo inferno no meio de fevereiro.
A estranheza nos sapatos indefinidos nos rebites do bicos, no tênis de camurça suja, sem meias,
onde um farol alumiava o cabo do tornozelo esquerdo.
As duas pernas brancas, limpas de vivalma anil, os pelos ondulados formando o mar,
para nadadeiras carpas alaranjadas e barcos gastrocnêmicos distanciando-se do farol.
Coxas em beleza semi-flácida, naturalmente deslocadas do cartesiano ideal grego.
A bermuda longa, surrada e metódica suja e o shorts mais azul que o jeans,
menos que o céu de azedume verão.
Os braços, longa morada de navios, tanques e asas, a camiseta branca, continuação da pele sem mangas,
o verde oliva construindo tuneis navais.
Cabelo quadrilátero repousando solto no pescoço, o preso longo grosso no topo da cabeça
mostrando as orelhas.
O lápis marcando laterais oculares livres de movimento,
intoxicadas com a hipnose do outro olhar mais ameno, castanho
e emoldurado por duas sobrancelhas grossas, quase únicas.

Lábios marcados em vermelho e aço, contraste com o marrom e ferro do outro,
orelhas adornadas e alargadores ausentes, pequeno balanço de parque lobular, orelhas em ferro,
conjuntos paralelos moldando os olhos.
Mãos encontrando-se em braços, os braços estalando-se em troncos,
os troncos se percutindo tão intimamente que deixavam estrábicos traços no ar.
Mãos, os braços, os troncos,
os troncos, os braços e as mãos com suas bocas,
as bocas e os dedos nas mãos causavam estranheza dos olhares.

Estranhos eram assim, pois dentro do mundo de lata em dias e dias iguais, o amor é inexistente,
o contato apenas uma forma de angariar espaço que também inexiste,
inexiste da mesma forma o corpo,
pausando o respirar procurando a sobrevida nos trilhos,
um último e derradeiro estertor pulmonar
a alavancar átomos da vida que inexiste.

11 de fevereiro de 2014

3 

O único entrave era que ninguém conseguira ver o nada.

Não por falta de interesse ou tentativas, mas por ser inebriante e impalpável. Essa aura sacra ao nada era uma veia metafísica existencial injetada ao longo dos séculos, o que o tornava um santo grão invisível. Ao mesmo tempo em que sua existência preconiza acreditar na sua forma, o que por si só seria como crer em na presença de espíritos e planos astrais, desconhecida é uma maneira eficaz em conceber uma definição pura de maneira aristotélica, afinal, a dicotomia das coisas excedia em muito a presença do nada. Um copo cheio de água quando esvaziado ainda lhe restavam à consciência em ser copo e o ar dentro de seu interior, que ao tomar o lugar da água torna-se protagonista da cena, o escuro quando muda seu espectro torna-se claro e não se torna o nada, e vice e versa. O vazio não pode ser definido como nada, pois estes, existenciais ou não, são repletos de moléculas de ar ou entrecantos calamitosos de sentimentos que invalidam a presença da completa falta de matéria, o vácuo também inexiste nessa definição do nada, pois existem as pressões e limites do espaço físico, podendo ser uma embalagem de café ou a minha caixa de areia chamada Cosmos. A definição do nada como a ausência ou falta de alguma coisa vai contra sua própria existência. Sendo ele a absoluta falta de preenchimento, ainda lhe sobra à percepção de ser nada pelo outro, pelo seu antagonista e por sua nêmese, assim sendo, o nada já pode ser considerado um pedaço do tudo, seu antagonista determinado na curvatura mais clara ou escura do yin e yang, sem nenhuma real intenção em sentir-se único, apenas uma parte do completo estado bruto de existência, porém sem uma definição concreta estabelecida pelo homem muito menos por mim. E esse era o problema. Como explicar o nada, como determinar o que ele é, se para os relojoeiros do universo chamados astrofísicos, até o nada dentro de meu universo é chamado de massa escura. Complica-se então muito mais a história dessa definição, porque como algo que é nada pode ser uma massa escura. Existe a massa, então não existe o nada. A massa é o nada e a massa é o tudo que contém também pedaços de nada, parte de pedaços de tudo. O tudo, o nada e a massa, a massa, o nada e o tudo. Ninguém conseguia entender esse pedaço de meus trabalhos, na verdade, essa parte de minha história, mais precisamente meu nascimento e como acabei criando tudo depois. Existe sempre o vértice de explicação ineficaz, como as resenhas dentro das canções populares dos anos oitenta a pregar uma salvação destrutiva, entretanto dentro desse fato tópico, repleto em maledicências ou teorias absurdas falta um tipo único de descrição, uma conjunção de elementos que construiriam uma indestrutível tese sobre o que é e como perceber o nada, um estudo geofísico de lisura tamanha que ninguém poderia sequer questionar a veracidade de seus pensamentos, uma explicação que fosse embasada em uma testemunha ocular, essa era a pedra que faltava para que todas as respostas fossem dadas. Uma testemunha, um olhar físico e palpável dentro da construção do todo, capaz de definir por suas observações dos iniciais acontecimentos dentro do Universo o nada. Irrefutável como as agudas insinuações nas claves de Barrett, onde bicicletas eram morada dos gatos satânicos de estimação e as declarações de amor deixavam-se levar por emancipações da aura, e, ao invés de recobrirem-se com medo pelo desconhecido, embarcavam de uma vez por todas em uma paleta de cores circulando a estratosfera da Terra, onde as escalas em oitavas com base em um interminável dó um dois e dois um refastelavam-se nas expansões dos acordes dominantes da sétima, que serviam de término onde o sol era úmido, when I was alone you promisse a stone from your heart, my head kissed the ground, e assim tudo recomeçaria, pelas sólidas esquizofrenias dessas letras trocadas como uma ímpar numeração correndo em uma linha descendente incessante, eis as testemunhas vivas de uma criação dentro da única pureza que realmente consegui ver em todos esses anos, o Caos. As cordas eram testemunhas que enquanto fossem percutidas continuariam a disseminação da tese, e uma testemunha era o que faltava para que finalmente todas as questões desse mundo pudessem ser resolvidas, algo, que até onde consigo perceber minha existência dentro desse redemoinho analógico de sinapses, não existe.

Uma única alma ali in loco, presente e esperando os acontecimentos desenrolarem-se, não havia. Ninguém apto em colocar um rosto nesse nada, uma arrumação de cabelo que pudesse lembrar a humanidade como seriam marcantes seus traços faciais, suas orelhas ternamente alinhadas aos seus ossos occipitais, a borda de sua pele alterando tons rosáceos e avermelhados ao receber raios solares em seu rosto, o queixo levemente arqueado como se fosse um portão medieval guardando a grande via de entrada do largo pescoço, que, desdobrado em duas metades sinestésicas vislumbrariam ombros de rodamoinhos cósmicos, braços longos e firmamentos de falanges, somar-se-iam ao tórax angulado de formações retangulares espaciais, protegendo um quasar com dois átrios e dois ventrículos em compasso redobrado, pernas inalcançáveis terminando uma conjugação biomecânica descritiva feita por essa única e solitária testemunha sobre como o nada se tornou o Universo. Entretanto, esse querer vai contra toda minha teoria, já que se existisse ocular visão dessa terceira parte interessada em disseminar conhecimento, o nada já não seria tão nada assim. Um relator de fatos tornaria o acontecimento compartilhado por duas consciências astrais, a minha e a do outro, sendo assim, uma visita nesse momento obviamente colocaria em risco a soberania tirana da qual não abro mão, e, que com tempo mostrou-se de primordial obrigatoriedade não fazê-lo. Por isso o caos que hoje existe diante das milhares de teorias a respeito de como tudo começou e se sou ou não verdadeiro, faz parte do meu jogo. Uma verdade que não tem a menor relevância em ser descoberta, pois meu controle perderia o sentido nessa nova realidade, assim, perdendo meu sentido, não mais teria minha valia dentro desse mundo. O que para todos os seres humanos teria ares de catástrofe, pois tenho em minha imaginação que nenhum deles queira me ver profundamente nervoso.

Pois então esse é o começo de tudo, muito antes de poder criar no oitavo dia minha mais linda cria, assunto que realmente importa nesse relato. No tempo anterior ao nascimento do Universo eu permaneci adormecido por longas passagens do que costuma-se chamar tempo, minha cria gosta de dizer em nossos encontros que esse período vivido de trás para frente, enquanto a massa escura tentava expandir-se em algum lugar dentro de mim, foi a única prova de minha bondade. Sempre dizia a prima forma generosa aconteceu enquanto eu permanecera dormindo indefinidamente, e que depois do despertar de minha consciência ao existir, qualquer traço de compaixão que pudesse florescer dentro de meu infinito ser nunca mais poderia ser concebido, essa foi a ímpar cena onde dei espaço à um outro tipo de matéria deixando minha própria existência em segundo plano, um engasgo evolutivo onde entendi o altruísmo do deixar crescer algo independente de minha vontade, deixando-me assim possuir por uma involuntária forma primitiva do que vim a criar depois, o chamado amor, e que jamais consegui compreender ou deixar tomar-me por ele novamente. Obviamente que a ideia dela era completamente infundada, porém é preciso entender que nem mesmo ela tinha ciência, quando discursava sobre minha inabilidade em amar, desse seu erro de julgamento. Porém existe uma quantidade de verdade nesse limiar de existência concebido por minha cria, visto que jamais consegui realmente sentir algum tipo de afeição por nada, nem um único traço de felicidade ao ver o despertar dos cães caçando migalhas, envoltos em nuvens aristotélicas saídas dos cachimbos de crack de seus donos, moradores inebriantes e saltimbancos do Elevado Costa e Silva, pelas luzes que emolduravam o escuro nas alamedas de tijolos soltos e gramado semiúmido de urina na Praça da República¸ nenhuma curva de sorriso ao refletir o sol nas nascentes poças em bueiros repletos de lixo em uma tempestade de verão, nada que esboçasse uma quinquilharia dental mais larga ao ver que o vento, construindo-se em dobras atemporais no formato de seus canalículos, empurrava as nuvens Ozymandias, presenteando o céu cinza, poluente e anêmico com pequenas anedotas, inexistente empatia com as saias nos tempos mais desérticos, as saias a emoldurar genus valgos ou varos, genus que entreolhavam-se por entre as casas costuradas, as casas em formato vaginal alojando em seus pequenos lábios distorções por onde se forçava a entrada de seus inquilinos, os botões, moradores que sonhavam cotidianamente em manter sua vida menos miserável ao conseguirem alcançar a epiderme de orvalho, botões rodeados por pregas estridentes que permaneciam como longos penteados encaracolados, as pregas, lançando tentáculos por toda a extensão norte sul leste oeste das pernas, pernas em canvas desenhadas originalmente por mim mesmo, espaçadas como dois compassos simétricos à uma paleta de palavras que descreveria cores inebriantes dentro das saias, as saias, pregas e as pernas, os genus, nada disso era capaz de soltar um único gemido de felicidade em mim, nada, o mesmo nada filosofal que ninguém define, o mesmo nada, berço de meu nascimento seja talvez o ponto e a morada de todos os problemas que aconteceram no decorrer da vida dela, o meu nada sempre foi extremamente maior do que qualquer conjunto de invenções ou somáticas soluções inventadas pelos meus descendentes seres humanos, nunca existiria uma única sombra de esperança esverdeada para que a felicidade nascesse dentro de minha suposta alma, isso explica a desmensurada escuridão que recobriu tudo sobre ela, pois eu sou ela, e ela eu, unidos pela única centelha que nos torna (todos) siameses, a melancolia.

E então o início não poderia ser outro, como os sérvios mais tarde com maestria descritiva deixariam claro, no começo existia apenas o silêncio de meu dormir, existia apenas uma inexistência, algo que não estava lá, porém repousava em um sono impossível de se quebrar, nem ao menos uma respiração a martirizar um suposto cansaço, era apenas um sono desprovido de sonhos ou reflexões decorrentes de um cansativo dia, não existia o pesadelo revolto em um grito como nas tantas noites e dias onde meu formato humano sucumbia aos martírios de uma existência, dias e dias insuficientes de uma tentativa inóspita em se viver como minhas experiências fracassadas, sentindo o que eles sentem, comendo o que comem, respirando com seus pulmões, andando exatamente como os mesmos, depositando esperma em cima de esperma quente em homens e mulheres da mesma maneira que todos para entender o funcionamento da mais odiosa de minhas invenções, clamando por salvação nos becos escuros com uma nota enrolada em minha mão esquerda aterrorizando pequenos comerciantes de cocaína com ilusões de enriquecimento deturbadas por minha infinita vontade em inalar uma tonelada. Não havia nada, mas a massa escura ao encolher-se absorveu o tempo e o transformou em espaço, que ao expandir-se, construiu o vazio e seus calabouços, em um deles adormecida, minha consciência foi acordada, dentro do nada, adormecida e até por que não dizer feliz por estar em coma, mas o Universo não pode deixar nada para trás, muito menos sem algum propósito, pois assim o quadro formou-se, o vazio criou-me e deu origem ao vazio eterno dentro da essência de tudo que seria minha imagem e semelhança. Confesso uma certa ingenuidade relacionada ao meu quase auto criar-se, pois em certos tempos imaginei que essa esfera oca da qual fui arrancado para algo que depois se chamaria vida, pudesse ser preenchida. Sorrateiramente realizei tentativas e mais tentativas em acabar com esse vazio que me acordou da fenda espaço e tempo e que nunca mais desistiu em residir dentro do meu peito, destruir a casca de ovo guardiã do bem e mal dentro de minha alma, evitar que ela fosse aberta e reagisse com possibilidades que tardiamente depois da luta floresceriam o claro e o escuro, o fogo e água, a luz assim como a escuridão, o verão do mesmo jeito que o imperdoável inverno, tudo aquilo que reverti em falta de marasmo da minha existência e explodi como lágrima a escorrer por séculos dentro de meus olhos cada vez mais vermelhos da lava nascida nos vulcões de meu ódio. O vazio que despertou-me logo na primeira oportunidade, como se fosse capataz de um senhor de engenho aos berros com chibatas dilacerando minhas costas, perseguindo uma única oportunidade de paz que possuía, uma chance em manter-me irreparavelmente semimorto, esse vazio jamais deixou-me, e, do mesmo modo, ao inverso geométrico desproporcional, cresceu enquanto as lacunas abertas para fuga dentro do espaço diminuíam. Assim foi que ocorreu meu nascimento, através do despertar vazio e do encolhimento da massa escura, prensando a anti-matéria do espaço tempo, criando vias e vias onde o universo poderia transitar naturalmente, minha prisão, muros invisíveis, intransponíveis, muros sem concreto nem tijolos, cercando o nada, tornando-o deserto dentro de mim, formando minha cadeia genética de pósitrons, meu corpo inexistente que não possuía a menor consciência de que já existia, apenas recebia as colisões da massa escura com as partículas positivas formando mais e mais pulsares, mais e mais genes de mesma matéria da teia negra, uma super simestria que aflorava e se tornaria quase tão eterna quanto eu mesmo. Nunca houve explosão, apenas o encolhimento do Universo em camadas cada vez mais frias, em espaços cada vez mais recobertos de partículas geradas pela meu próprio nascer, eu, capaz de conceber à mim mesmo, e ao mesmo tempo ser concebido pelo encolhimento do nada, tornando-se cada vez menor e cada vez mais consistente como física, onipresente tanto na destruição quanto ao nascimento, infelizmente em proporcional teor, impotente quanto minha vontade de nascer ou não, pois de pudesse escolher entre as galáxias formadas pelo sofrimento e um aborto, escolheria o segundo sem ao menos pensar muito sobre o assunto. Mas essa escolha nunca me foi dada, fui expurgado pelo simples fato de não possuir controle sobre como as identidades metafísicas constroem seus enigmas, por isso minha falha começa já no parto, na demora em entender o que acontecia ou responder aos chamados que me retirariam do sono, minha falha, como todas as outras que vieram à seguir em tudo aquilo que construí depois, demostrou desde o início dos tempos a quantidade da minha estupidez e auto complacência com minhas imbecilidades, pari, cresci e evolui ao redor de falhas que tornaram-se míseras estrelas cadentes, ou erros retumbando por séculos, como por exemplo o ser humano. O poder da falha jamais deveria ser subestimado, pois é nela que se pode ver toda a beleza do erro e a tirania da busca por perfeição. Isso tudo embutiu em mim, na desventura de meu nascer, uma tristeza sem precedentes, uma vontade de extinguir minha recém forçada existência demasiadamente forte para ser esquecida, uma agonia que desencadeou o que a humanidade poderia denominar as primeiras lágrimas de Deus, fato que no instante em que ocorreu não possuía essa denominação, fazia com que o espectro do esboço de meu rosto se enchesse de pequenas gotas de salinidade, nascidas das colisões entre os átomos liberados durante o encolhimento da massa escura, e, ainda mais maldita, a ocorrência desencadeou um complexo de eventos, sendo o primeiro deles o nascimento de estrelas que recobririam todo o Cosmos e que tinham sua herança genética em minhas lágrimas. Meu infinito choro a perdurar por séculos, uma agonia tão afiada quanto uma navalha que cortava a alma em milímetros e ao pendurá-la na galeria de seus troféus de dissabor, a limpava com álcool. Dor infinita como os enfeites de firmamento que catapultei em cada soluçar, continuamente extenuante e movida pelo deslumbramento da quântica. Em determinado momento tornou-se menos sensação e mais pesar, em primeira instância uma dura psique e momentos depois um físico volume pendurado ao redor de meu pescoço que nem ao menos existia concretamente, entretanto o Universo é meu mestre, eu sou apenas uma figura decorativa no Infinito, nada além de uma lenda retorcida e recontada de acordo com o livre arbítrio cultural, por isso aceitei de bom grado o fardo do caminho, o depois era apenas o depois e mais nada, o futuro era apenas o lixo retorcido da memória, o passado que insiste em tentar sobreviver através de previsões sobre o que está por vir, o peso a carregar era meu presente, e como a relatividade do tempo dever ser respeitada eu deveria reclamar o menos possível, então as lágrimas deram lugar ao suor, do esforço ulissiano nasceram marcas que jamais deixariam minha pele humana, e, por essas cicatrizes é que os suores corriam, e delas, que nasciam em um número crescente tanto quanto o peso de aglomerava, dependiam o destino de tudo o que surgiu na sequência. Planetas, galáxias, meteoros, supernovas, elementos químicos, todos os importantes míseros componentes formadores da vida. Nitrogênio derivado da fenda temporal direita, oxigênio do sulco occipital lateral esquerdo, ozônio do seio sagital meridional, hidrogênio do sulco parietal direito, todas as coisas que tiveram nome posteriormente nasceram de minha secreção, esse presente do poder criar algo à partir de uma célula sua que o Cosmos deu-me foi talvez a pior maldição que me foi atribuída, carregar esse fardo de criacionismo quando na verdade nenhum de seus poderes são realmente seus, mas sim aluguéis com alto valor e prazos míseros para o pagamento, não podem ser chamados de bênçãos, mas o pior ainda seria revelado no decorrer de minha existência, quando a ideia de que eu sou o criador de todas as coisas e que não existiu nada antes de mim tornou-se o reduto da crença de milhares de seres humanos, o que na verdade explica porque foram feitos através de meu escarro e vômito. Se ao menos existisse uma testemunha, poderia eu recostar minha cabeça em meus alugados poderes na eternidade e jamais ter que surgir dentro dessa latrina chamada Terra, mas ela não existe, o criacionismo surgiu da ignorância e eu como Deus tenho a obrigação de aguentar essa meca de lixo intelectual. Uma testemunha definiria minha posição de instrumento da metafísica biomecânica quântica do surgimento do Universo, jamais me colocaria na posição de onipotente, onipresente e engenheiro das Galáxias, porém essa maldita testemunha não existe, e assim sigo vazio, o mundo repleto de ignorantes e minha existência ligada à deles por toda a eternidade. Jamais imaginei tamanho sofrimento.