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21 de agosto de 2014

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In loneliness

There was a birth, then a void
Screaming and blood at the soul canvas
Then there was loneliness
In this place were born
In loneliness
Like a shadow that crawls back
Like a hurricane without force
In loneliness
Like a lost leave carried away into the dirty
Like a hollow grave left unmade
Like a unaware corpse
Like the balls bouncing into labia
In loneliness
This place were concrete speaks
A prison in panopticon places
The freedom felt already taken
For the ones who sells loneliness
Same that we have lived through years
This place where people just passes
Pawning smiles for less than a dime
Where whiskey is a friend in need
And we simply don’t give a fuck for
In loneliness
Die in loneliness
Live in loneliness
With lovers that hate us
With debts so deep that bondage us
With no warm in any kind of soul that were sold to us
On shit paperviews channels
With shit shows with no soul
We all live in this hell
Post modern technological apathy
Lost humans raised in meritocracy
Elevated to be one of a kind
A fucked kind of human being
In loneliness
That cuts our heart with no sign
Stay within for decades and decades and decades
Pushed in our throats every day
In advertisings with the promisse of perfection
The framed future with no one
Only the body that once was cover in blood
On the birth
No one else
Our perfect live, robotic life
Instagramed life
Dying every single time
In loneliness

12 de agosto de 2014

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Gerador de cinzas

Meu lado esquerdo do cérebro é incerto
traz apenas desespero
trôpego incomodo
cambaleio
sou meio inteiro
nem ao menos tentativa tenho
é mudo solavanco hipotônico
flácida estrada canvas
o sarro amargo em mim
tentáculos de uma culpa infinita
sou gerador de cinzas
um esquecido cadáver desavisado
que sou
somos
sem lados
esquerdo ou direito
apenas tentativas falhas
complexas
completas
daquilo que nos atravessa por completo
por inteiro
como um descarrilho
sem aviso
como se fosse ônibus
esmagando a cabeça de um cachorro
deixado fedendo à beira de uma sexta feira
por debaixo do Elevado
aquele viaduto com maldito nome militar
à sombra da sociedade
que apoia o genocídio palestino
o cheiro de merda pelos cantos
a cor do lixo pela ciclovia no sábado
um mundo em ilusão
por uma lua gigante inabitada
enquanto a alma humana
escorre pelas valas do calçamento
o emprego oco
que preenche espaços do corpo com palha
SECA
somos geradores de cinzas
máquinas esmagando árvores
mímicos do desespero
o apego aos cento e quarenta caracteres
aos desavisos de uma teimosia manca
teimando por séculos
em permanecer rígidos
estáticos
assombrados pela própria magnitude
que inexiste
geradores de cinzas
da tecnologia que sufoca
abarrota a garganta de asco
os olhos que não se veem
os corpos que não se tocam
as almas solitárias
tão solitárias quanto um vento nesse tempo árido
nesse concreto metalizado
que supostamente protege as vidas
da própria vida
ACORDAR
do pesadelo
não é uma questão de vontade
LATÊNCIA
viciante como o pó
persiste consumindo artérias
quântica perdida por entre os dias
holística que substituiu a transgressão
FODA-SE A HOLÍSTICA
matem-na e a enterrem
longe do mar
para que jamais possa ressurgir pelas ondas
para que jamais renasça pelo esgoto
clamando um mundo melhor
sem sangue
sem fogo
apenas com a leveza em bruma da alma
a rezar
aliviando feridas
que devem sangrar
vivas escaras em vermelho vivo
únicas provas de que não são nossos corpos
robóticos endoesqueletos
deixem queimar a pele
em distorção suficiente
para que enfim se possa despertar
da calmaria
que já se vai tarde
por entre os poros
o grito uma faringe
rouca
amedrontada
nascida muda
quer agora o controle
deixe-a perfazer o caminho
transgredir
a única peça que falta dentro do Universo
a cegueira pós moderna
da sociedade ascendente
perdendo o rabo na cauda de um cometa
elevando-se em mérito reverso
esmagando a grama que ainda resta por debaixo dos pés.

24 de abril de 2014

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Haikai

O preço do amor é poesia.
Águas claras,
o rio plácido a refletir orquídeas cristalinas.

23 de abril de 2014

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Quando enfim o pus virar saliva.

Parecia o contorno,
do corpo,
na vestimenta, não era.

A marca da pele
– escondida,
forma atrela.

Meu pau precipita,
em seus lábios
– espera.

Quando enfim
– o pus virou saliva,
bálsamo era.

Minha língua sem mãos [atadas,
lasciva-te os bicos dos seios
– eletrosfera.

De quatro clamando
– o penetrar perpétuo,
lua angarela.

Uma angra de gravezas
– espuma o ódio,
falta sincera.

As gramíneas andam,
escorrem tua chuva
– sentir os fios, atmosfera.

Apenas deitar em teu vale,
a pena valeria
– tua boca, o dissabor cancela.

17 de abril de 2014

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Os restos da sarjeta tatuados no rosto

É o desatino que mata,
as canções em arestas secas,
o desespero que aos poucos consome,
em pequenos pedaços a alma.

As faringes involuntárias aleatoriamente falando solidão,
a decrepitude da epiderme nas bordas dos cotovelos,
as dores articulares que apenas passam com o álcool,
os fins desses tempos acelerados, queimando distorções ideológicas.

Essa raiva itinerante, mambembe e vaginal,
que me rasga o cu à procura de acalento,
distorce todas as visões possíveis,
transcende a necessidade do manter a sanidade,
em uma caixa preta onde sinais são soprados aos solavancos,
hélices, halabastros, halucinógenos, haachinianos,
habemus confitentem  reum.

Sentir cada pedaço dos restos emudecerem,
enquanto as sobras do que se pode tentar ser desabam.

Metástases de uma alma em cinza,
rameiras emoções de homicídio assistido,
são as teclas que movem o corpo morto,
as esperas que matam em cada vômito,
a não simpatia enquanto pendura-se no pescoço a corda,
no décimo primeiro andar,
correndo pelo encanamento aleatoriamente.

Enquanto a vida assopra o deus morto pela janela,
ventanas, vadias, vassalas, ventania tardia atordoa,
o arribar desse infinito número pi de eterna tristeza,
por quarenta e oito horas sem interrupção,
onde o alento do copo,
estremece convicções,
sobras,
pesadas das calhas recheadas de rancor,
o ódio que consome o calendário,
em cada pessoa sentada à sua frente,
na cadeira. A vontade,
o martelo desejando acertar a têmpora,
deixar essa merda de corpo no chão,
essa mediocridade para trás,
as mazelas do interior que ao estuprar as bordas dos orifícios,
jamais conseguem desamarrar-se,
como se tivessem garras e ventanas,
em formato de amebas unicelulares,
cânceres recobertos de verão.

O desespero do minutos incontáveis,
remoendo manchetes em medo,
são apenas estiletes de paranoia,
recortando moscas nos copos outrora vazios,
dos restos da sarjeta tatuados no rosto.

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Quarenta e oito horas...

Restam quarenta e oito horas,
apreensão aos poucos rarefeita.

Vai desfazendo em quarenta e oito horas,
os efeitos de meus ingeridos narcóticos.

Esperamos.

São umidades matinais, lágrimas com café,
acalento quando se dorme, e deus,
o maldito,
sorri desapercebido.

16 de abril de 2014

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Microconto insône matinal

Ao nascer da madrugada,
por entre a alquimia de apreensão,
raiva e medo,
percebe mais ligações entre espécies diferentes,
elo intrínseco.

Imagina,
se por um acaso mal explicado,
fosse uma criança a presença além alma que estivesse adoecida,
ao invés do mamífero em alva cor.

Senta-se acadeirando-se no sofá,
dormentes genos formam fogueiras,
ardem,
pensa novamente na criança,
a esquece com a mesma força de criação.

Ao lado o olho corre,
o cão suspira,
buda espera o cair da gasolina e o acender do fósforo,
chamas consumindo o mártir que dorme sem saber.

15 de abril de 2014

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Gur’3JAR

Trouxe então a tarde uma desavença aos trancos, 
a frenagem satisfeita, as pernas desabando, 
o homem perdendo [se], os isolamentos desdobrando [se]. 

Por consumir toda a vida,
o trilho emite contrações. Contorce,
sem ao menos sentir-se são,
espera o fim no bunker. Concreto,
sem coerência, onde não existem –
nem ao menos veias e almas.

A corroer toda a vida,
o vagão trina silvos violentos. Consome,
sem ao menos sentir-se dono,
enlace louco de lucidez. Gur’3JAR,
sem impaciência, onde sim existe –
saída antes do fim.

Por explodir todo o medo,
a velocidade não espera. Concerta,
sem ao menos sentir-se entediada,
arestas em imundo mundo. Sangue anil,
percorre passagens pelas catracas –
escorre nas janelas poluídas.

A desdobrar todo egoísmo,
o farol não mais alumia. Cabriola,
sem ao menos pestanejar [espera,
que a luz vagueie pelas vistas. Infinita,
resista aos desmandos humanos –
desfaça o pensar no só.

A incoerência desse mundo em ferro é simbologia apenas, 
os olhos sem alimento, o corpo padecendo, 
a inexplicável incoerência [de], as mazelas no desamor cotidiano [de].

4 de abril de 2014

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Sobre ângulos...

Olhando o teto,
não entenderia uma só palavra,
com óbvia repetição,
poderia, porém não.

Ao chão, poderia direcionar meu olhar
ao chão, mas não o fiz.

Ouvi então mais uma vez,
por um triz, quase escapei da voz.

Poderia, mas não desta feita, como sempre,
sempre minha saída.

Fugi, atrás do plausível acalento no desprezo, 
entretanto,
a insistência era atroz.

Por mais uma vez,
estimulando me ceder,
a voz a indagar se por acaso,
atei-me detalhes do coração,
por mais uma vez.

Por fim os abro e olho para baixo,
com olhos mecânicos,
alcanço então o refletir vermelho em onda,
de um coração com aproximadamente,
dois centímetros de raio assimétrico.

Postado logo acima,
semi reto nas abóbodas.

Todas as coisas,
esperma, bosta,
pó e saliva,
em uma alma vazia,
que assim permanecia.

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De Ontem Amaram

Aperta, espera então –
o ar chegar.

Despertar tremores,
o além,
sonhar amaram.

Sonhar sem vazio,
a boca, as mãos sem frio,
tatear. Infinito,

sentir o ar chegar.

Aos poucos, soluçando uma passagem,
devagar. O corpo translado do lado –
da alma,
a dançar.

Estirada, saciada aos sorrisos, por dias –
e horas. [A alma sente o ar.

A carne aperta, vandaliza.
O melaço,
a caiar se espalha.

O corpo espreme-se,
se contorce.
Espera faltar o chão.

E falta então, some assim,
sem mais aviso,
com precisão.

Em par, em laço,
entrelaço a salivar,
- desfalecer quando -,
o quase o fim.

Espera a vida ,
então diluir o ar.

Vai-se lá o vazio,
esperando que lhe acenem,
calmo. Percebendo seu destino,
a pesar.

Veja lá que assim deve ser o infinito,
sem pressa, involuntário,
de trajetória par.

Peca então pele,
expõe as artérias arestas. Deixa o ar,
entrelaçar amaram em mim.

28 de março de 2014

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Sobre os Ramones...

Um lugar entre as existências,
desencontradas consciências, coisas que encerram apenas um-
auto significado-
formando-se tal à imagem
apenas de si mesmo -
e para si mesmo-. Desespero
que a consciência humana provavelmente não entendeu,
ou pelo menos,
sessenta e cinco
por cento dos mamíferos (e)masculinos,

Arrisco dizer,
aos solavancos (por ainda crer em alguma coisa,
dentro dessa huxleyniana esfera),
"sem as aparas que lhe permitiriam diminuir a velocidade,
assim observando suas translações inóspitas",
quartetos distintos,
com uma mesma deambulação em revolta.

Zeppelin em Communication Breakdown, anemofiliza. O impuro ar
com a poeira que sobe dos solados nos sapatos,
quando estes arremessam lava no calçamento-
por seu incontrolado debater inconsciente-,
raiz arrancada do solo "com a simplicidade dos ares que antecipam a explosão",
pelos Ramones.

Claves usadas para recobrir corpos de movimento,
como as canções nos anos cinquenta,
labrum incontrolável,
gosto tamanho da banda.

Picotadas por três minutos,
com precisão do deus azul de partículas atômicas,
transformado em algo muto mais lendário.

Existe a banda espetacular, e,
bandas que mudam a trajetória da história,
as jaquetas e calças surradas (do álbum gravado em apenas duas semanas,
por seis mil dólares) dos Ramones,
transitam pela mesma poeira do zepelim,
porém em rota de evolução.


 

24 de março de 2014

18 de março de 2014

Onze horas antes pensava-se
apenas, pensava-se
na espera,
não se tinha noção,
do montante de tempo,
na amargura e
no sofrimento,
não existia nada,
nunca houve nada,
apenas a espera.

Quando se sai,
se volta e vai,
estoicos tempos de
eterno retorno.

A espera é mórbida,
os segundos,
sujos que já não voltam,
o dia escorre,
a morte assombra.

O sol se foi como desconhecido,
a noite como se
anônima fosse,
o fim do tempo desaparece,
as salas são unicolores,
os sorrisos -
de desespero plástico são.

Espera-se mais da paciência,
o fim espirra ao seu lado,
senta-se na calçada,
lhe dá a mão.

Os minutos não mais relativos,
apenas afeterés cartesianos,
daquilo  que não foi vivido,
apenas o choro, a dor e o desespero.

14 de março de 2014

Para quem tanta pressa?
Se quando desperta,
não sabe onde vai.

Para quem tanta pressa?
Se nesta floresta,
o concreto se esvai.

Nas veias,
artérias,
no meio fio
onde me deito.

O ódio que não se transforma
mais em raiva,
apenas regurgitado internamente
fica, como pó do dia
seguinte.

O gim colado
em seu lobo
contemporiza máculas, então
a lucidez não existe,
não importa.

O grito oco persiste,
as convicções esvaem-se,
aspirador passado,
cigarro fumado,
vodka seca em textos
mergulhados.

Confins do avesso oco,
martírio em respirar, passagens
inóspitas,
do Universo galopando
nos restos da sarjeta.

Polinice que se cala,
ao fim do dia,
onde as cinzas de parentes, nada
mais são,
nem ao menos uma lembrança,
nada mais são do que os restos
de um cidade,
mórbida, morta e
sem cura.

O seco som do inverso, a[teia]
intrínseca do desespero.

Leve exibicionismo da dor,
por entre as paredes
que refletem hélices,
balões de hélio, esfinges e seus
milhares de andares,
transportam restos de corpos,
elevam-se mínimos,
aflitos,
atingidos por raios,
no meio do calçamento azulado.

Plantam restos de pulmões
deixados para trás na vida plena.

O único pelo,
nascido incauto no saco
inelástico,
a gravidade,
que esmurra suas sobras
abaixo do trópico no meio fio,
o azedume da poluição,
a invadir suas narinas,
alabastro de cocaína eterna,
as doses inexatas do apagar das luzes,
homeopaticamente,
como a holística e seu enorme pau,
a te foder incessantemente rabo adentro.

Os braços marcados de morte,
a falha na aposta do existir,
insensatez de uma ilusória vontade
em persistir, [a única malha,
uma única manta de sabedoria, ainda
reside dentro do sujo vidro
arredondado,
onde se deposita a alma,
a cada tragada embebida
em uísque falsificado,
vendido em plástico.
 







8 de março de 2014

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Negação

Existe apenas a negação, rosa sem casa,
sem entrada e portão, apenas o não atrás do não,
algo que se deglute vagarosamente, como rancor ou ódio,
como alguma coisa que entala na garganta e cresce como câncer,
uma artimanha das mais torpes feita a cada dia pela vida,
pois o concreto é apenas a negação, nada mais,
nem o fundo do copo, muito menos o cigarro queimando as arestas de seus dedos.

Nem ao menos a dignidade do aviso, apenas um soco seco,
uma lata repleta de pedras acertando sua cabeça sem sinal,
sem marasmo, sem alerta, apenas pedras octaedras,
mundanas ao mesmo tempo repletas de sanidade, 
a única coisa que seu peito em aparente explodir em dor,
jamais conseguirá atingir.

Apenas o não, o nunca, a desqualificação do exercer,
as notas bestificadas em avaliações subjetivas,
o respirar serôdio de uma vida que começou tarde,
enlaçada por devaneios eternos de mentiras
a cobrar seu preço na velhice,
o estômago que padece de uma melhor colocação, a alma sem jeito,
o manejo irrestrito dos poluentes escorrendo na pele,
enquanto as tentativas em se tornar algo melhor do que apenas um endoesqueleto,
tornam-se cada vez mais inertes.

O caminhar é pesado, o caminho lamacento,
as entradas e suas espessuras de concreto lacradas,
as pessoas a sorrir sabendo que a desgraça se aproxima, 
as mãos que lhe empurram na direção do abismo,
as anedotas contadas pela morte no final do balcão.

Não é uma das faixas desse eterno lado bê,
acordes suásticos lambendo tua boca, acariciando teu querer,
o álcool dizimando esperanças,
o não arrastando-se pelas arestas,
consumindo os restos do corpo já decapitado,
cuspindo nos vértices do coração,
exumando os restos carnais do querer,
são diretos e ganchos em particípio passado do acertar sem descanso,
são os mínimos choques elétricos na uretra,
a vida vagarosamente retirando sua pele e deixando seus restos nus,
tocados pelo vento repleto de areia e cimento,
dissecando seus músculos,
gelatinosas miosinas,
actinas a resplandecer o podre das ruínas,
o não sem rosas e casa,
os restos que fecham feridas,
as luzes que aos poucos tornam-se cinzas,
são as mesmas do caleidoscópio.

E assim no entretanto do passar dos dias,
onde as linhas brancas unem-se no paralelo infinito do vidro ocular,
os passos são dados na direção desse mesmo não,
o não passado pelo cordão umbilical,
o não que se ganha sem querer,
sem saber que existe a negação,
os passos sempre na direção do não que nos espera como amante saudosa,
como mãe zelosa que nos assassina,
o não,
sempre a contar com nosso caminhar em sua direção,
é também não, o não temer o não,
lhe devolver o direto de esquerda bem no meio dos dentes,
e com sua boca sangrando,
sorrir ao não como um sociopata, arregalar os olhos, gritar e correr em sua direção,
possuído com todos os demônios moradores e vizinhos,
avançar sem piedade no terreno cartesiano,
bater, bater, bater, bater, bater, bater e bater,
até o não sem rosa e sem casa cair,
até sentir a morte dele aos poucos,
pela respiração ofegante,
depois de tanto apanhar,
e mesmo com toda essa fúria disseminada,
bater ainda mais.

A vida nada mais é do que um ringue,
um lugar onde cavalos de força são reis,
nuances de delicadeza são pontos de apoio,
as luvas da negação penetram,
acertam teu rosto deformando-o,
o baluarte da esquiva se faz tão necessário quanto a respiração certa do ripostar,
acertar a negação com ódio e luvas de câncer,
é o que resta, sem casa e sem rosas.

19 de fevereiro de 2014

Pois o espaço entre as pernas em estática permanecera, 
não existia movimento com elevações agonizantes,
daquelas que sempre dão vista em pessoas mais velhas com aquela estrutura,
ele porém se manteve tão estático, que,
em qualquer momento poderia acontecer de soltar pelas faringes badaladas,
como um relógio de eficaz precisão.

Residia em sua cabeça uma curvatura anatomicamente precisa,
formada na sua grande maioria pelos rebordos de uma francesa boina, 
escavando tentáculos anastomoses,
cercando o córtex,
deixando para trás qualquer tentativa de lembrança,
algum desgaste mórbido de memória,
que Adolfo possa ter.

Dona de sua cabeça,
com a falta de piedade que sempre apresentam em seus dentes,
aqueles que oprimem,
a boina repousava dona de si mesma e do homem,
nas curvas exatas como uma equação quântica de biofísica atômica, 
entretanto ele não parecia importar-se,
entretido estava envolto nos enlaces de páginas,
onde aviões e siglas se compadeciam de seu enclausurar forçado capilar,
folheando como se suas mãos fossem ávidas turbinas, 
como se seus olhos fossem trovoadas em tormentas,
retinas de cúmulos nimbos,
ninfas mecânicas com asas e rotores,
queimadores de mentirosos e seus caminhos de cinzas,
“she’ll came back as fire to burn all the liars, leaving a blanket of ashes on the ground”.

Mas Adolfo não se importa,
quer apenas continuar sua veloz antecipação,
do que está por vir nas próximas onze páginas,
pensando em como os manches devem ser macios,
a cabine pressurizada quente e aconchegante,
um útero de segurança que a qualquer momento pode cair,
as mãos rápidas,
os olhos tenebrosos em não acompanhar seus dedos,
a matemática inexata do folhear,
para trás e para frente,
para frente e para trás,
para o meio e para frente,
para frente e para o meio, e,
para trás de novo.

Adolfo enfim abre as ranhuras,
os panfletos onde pode se ver, Dubai,
Aerolineas Argentinas, Israel, África do Sul, Egito, Grécia, Lufthansa,
elefantes, safári, espingardas, homens em couro areia,
e não existe sequer tremor em suas mãos,
está ele armando sua redenção em forma de viagem,
provará aos que sempre o viram como apenas um homem de meias compridas, finas
e de sapatos pretos ligeiramente gastos em sua porção valga,
aquilo tudo que em sua mente sempre foi uma tônica acelerada,
ele poderia voar no exato momento em que quisesse,
na exata hora em que seus pensamentos exacerbados pelo aço do metrô,
lhe dessem o necessário impulso ao que se chama de voo livre,
lá iria Adolfo,
aos céus sem parada obrigatória,
sem estação de repouso,
sem pouso de emergência,
apenas ele e sua redenção de asas em direção à Ásia,
o rei do ar,
o monarca de todas as aves, e,
enquanto seus panfletos das companhias de viagens,
suas brochuras com aviões e pontos turísticos,
estivessem por dentro de cada centímetro de dna exalado em sua pele solta, 
ele chamais seria um idiota.
“But I’m having fun, I think I’m dumb, maybe just happy”.

Mas Adolfo sabe que possivelmente,
ele esquecerá tudo isso no momento em que descer do trem,
suas lembranças soarão apenas como agudas oitavas abaixo,
sem ressonância dentro de seu córtex,
terá dificuldade de lembrar-se onde está,
como chegou e quem é,
menos aflito por perceber que seus passos foram apagados por ele mesmo,
mais por não saber como recuperar a trilha de sua memória,
quando então se dá conta disso tudo,
não mais abre fecha abre fecha folheia passeia pelas folhas,
arruma exatamente usando medidas de tamanho,
cor e espessura,
suas rasuras de vida com páginas, 
coloca-as de maneira educada e gentil dentro de sua mala preta,
recoberta de zíperes, fechos e alças desesperadas,
onde cada objeto tem sua posição confortável e solitária,
como corpos em coma acordados para o banho de sol,
sem nenhuma testemunha que lhes diga,
o quanto importantes elas são.

Assim gélidas em seus caixões,
Adolfo coloca todo seu material na maleta,
recorre ao seu suco alaranjado de fitas VHS,
armazenado em uma pequena garrafa de plástico,
com seu rótulo alcaguete,
revelando que o suco laranja não é definitivamente parente próximo, 
afinal de contas sua etiqueta é roxa,
Adolfo toma-o sem pressa dessa vez,
o fecha,
espera,
acorrenta as últimas tentativas de entender onde está realmente,
pede clemência com o olhar que agora contém um óculos caçador escuros,
e levanta-se na Estação Carandiru.

As portas abrem-se,
ele sai,
retoma seu raciocínio ou o que restou dele,
repensa em todas as formas de voar,
toma distância,
arremete uma corrida sem freios,
rápida como suas mãos em seus folhetos de viagens,
voa
voa voa
voa voa voa
voa voa voa voa
voa voa,
voa...

Ganha sua redenção da Estação Carandiru, e,
se lembra por alguns momentos,
durante suas crises de esquecimento,
o quanto sente falta de sentir-se triste,
menos porque é dono de uma ímpar depressão,
mais porque realmente não consegue lembrar-se.

Porém Adolfo sempre terá os panfletos e a lembrança da tristeza.
“I miss the confort in being sad”.

( Dumb e Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle – Nirvana)

14 de fevereiro de 2014

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Atraso na plataforma de embarque

Eu que aportei antes
do desabar o céu

Pré lamento das nuvens algodão
embebidas em pus

Perdi a cachaça
à beira do sujo balcão

O cuspe em raio
sedando o milho no lixo

O resto do dia rastilho
cobrindo feridas de saliva
                                      [atraso na plataforma de embarque

13 de fevereiro de 2014

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Pretérito

 Todo disfarce é pretérito imperfeito
como o arroz enroscava no hashi e nos solavancos da vodka
a lembrança trancada no banheiro
o nariz escorrendo restos de açúcar cristal.

A emissão de pseudópodes na direção do fígado
no amparo a voz rouca da cocaína
o vaso trêmulo como minha glande
no momento onde a urina precipita.

As concretas imagens dos velhos contorcendo-se
ao tentar caminharem no pós-moderno calçamento
em cada aglomerado analógico do medo residente no rosto
nascerão incertezas no futuro do presente.

Em cada par de pulmão imundo por diárias toxinas
em cada lábio rasgado pela ansiedade sanitária
em cada desaparecimento do corpo humano no cotidiano
em cada não ser eu no momento em que me reconheço.

A fumaça do cigarro atravessando paredes
envolvendo uma bolsa escrotal de cola
máscara de plástico sem manifesto
em sujas arquibancadas entre Washington e Bahia.

Renascer assim apenas ao existir o que se lembra
arrabaldes de uma terra seca e vermelha que doíam a cada lembrança
um otimismo cínico disperso no vidro do trem refletia perfeita simetria
entre o friso da porta e as amarelas alavancas de acordar no ponto.

O medo então torna-se mágoa, a mágoa torna-se ódio
os trens percorrem milhas através de milhas por entre milhas
o copo sempre cheio, o cheiro ácido de água ardente em uma praia qualquer
mesclado em nicotina e conhaque, erva e crack às nove da manhã
o mais puro querer no tempo do não querer.

A vida vadia, vazia, estridente e dormente nos vagões em direção à cidade de Marília
o resgate da Maria Mole descia como navalha
arrebentando os restos de uma suposta pureza
envolvida pela fumaça da maconha no último vagão.

Mas o corpo padece no futuro imperfeito
onde a morte espera o que teremos
dívidas levadas não serão depósitos apenas débitos e mais débitos com juros
nada que possa se transformar em ouro vem do que foi
muito menos em força transmuta a ficção alucinógena do que se viveu.

Resta a catraca à frente
a vida que ressurge em outras cores
resta a soma do virá
enfim um alento
ao mórbido dissabor do passado.

12 de fevereiro de 2014

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Estranheza...

Eles causavam estranheza nos arredores, como não poderia deixar de ser,
dentro desse aquário metalizado com ar pela metade condicionado,
pelo inferno no meio de fevereiro.
A estranheza nos sapatos indefinidos nos rebites do bicos, no tênis de camurça suja, sem meias,
onde um farol alumiava o cabo do tornozelo esquerdo.
As duas pernas brancas, limpas de vivalma anil, os pelos ondulados formando o mar,
para nadadeiras carpas alaranjadas e barcos gastrocnêmicos distanciando-se do farol.
Coxas em beleza semi-flácida, naturalmente deslocadas do cartesiano ideal grego.
A bermuda longa, surrada e metódica suja e o shorts mais azul que o jeans,
menos que o céu de azedume verão.
Os braços, longa morada de navios, tanques e asas, a camiseta branca, continuação da pele sem mangas,
o verde oliva construindo tuneis navais.
Cabelo quadrilátero repousando solto no pescoço, o preso longo grosso no topo da cabeça
mostrando as orelhas.
O lápis marcando laterais oculares livres de movimento,
intoxicadas com a hipnose do outro olhar mais ameno, castanho
e emoldurado por duas sobrancelhas grossas, quase únicas.

Lábios marcados em vermelho e aço, contraste com o marrom e ferro do outro,
orelhas adornadas e alargadores ausentes, pequeno balanço de parque lobular, orelhas em ferro,
conjuntos paralelos moldando os olhos.
Mãos encontrando-se em braços, os braços estalando-se em troncos,
os troncos se percutindo tão intimamente que deixavam estrábicos traços no ar.
Mãos, os braços, os troncos,
os troncos, os braços e as mãos com suas bocas,
as bocas e os dedos nas mãos causavam estranheza dos olhares.

Estranhos eram assim, pois dentro do mundo de lata em dias e dias iguais, o amor é inexistente,
o contato apenas uma forma de angariar espaço que também inexiste,
inexiste da mesma forma o corpo,
pausando o respirar procurando a sobrevida nos trilhos,
um último e derradeiro estertor pulmonar
a alavancar átomos da vida que inexiste.

16 de janeiro de 2014

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Clima Tempo

Clima tempo

Marimbas tocadas por inúmeras mãos,
são como granizos nas telhas,
equacionam alterações nos tempos musicais
através da reverberação de correntes aéreas nas arestas do concreto,
onde rodamoinhos de vento entrelaçam-se -
lambendo as venezianas da zona norte.

Cáu [o] stica

Padecem os raios solares,
definitivos mortos pelo cinza e pelas sombras,
arrancados de seu lar com violência,
em cada cusparada sólida de gelo -
que despenca do céu a tremer por infinitos minutos.

Trovões epilépticos em contagem cada vez mais próxima.

Gritam por entre os medos das gotas,
em serem eletrocutadas,
como as pessoas fogem em desatino pelo calçamento molhado,
como os pés deslizam sem direção nos tapumes,
como as calças destoam na paleta de cores ao ficarem úmidas,
como a alma foge amedrontada quando sente a corrente aérea circulando-a.

E o vento ereto no concreto penetra por entre as perfeitas assimetrias.

A vida então muta como sempre,
avida por sentir os segundos que a tornam algo a mais
que não uma simples passagem de dias,
o estrondo da mudança de estados físicos,
de seus amores e amantes elementos.

Escorre como a água
que derrete nos cantos da canaleta
recoberta de granizo.

Tempo muda.